Mudanças climáticas podem afetar a cultura do coqueiro
Por Dulce Regina Nunes Warwick*

Existe um amplo consenso de que as mudanças climáticas já estão ocorrendo, estando ligadas ao acúmulo de gases com efeito estufa na atmosfera, sendo o dióxido de carbono (CO2), indiscutivelmente, o maior contribuinte para este efeito.

Além do aumento de CO2, as plantas terão que se adaptar a um novo ambiente, na maioria dos casos, mais quente e, possivelmente, com períodos extremos de chuva e seca. Existe a preocupação com as mudanças climáticas na produção de coco com temperaturas mais elevadas, maiores precipitações e também as diferenças de carbono em relação a fertilização das plantas.

Embora longos períodos secos afetem negativamente a produção de coco, um elevado teor de CO2 na planta afeta positivamente a produtividade, como um elemento essencial para a fotossíntese.

No século XX, houve um aumento de 0,65ºC na média da temperatura global. Quanto à precipitação, o aumento variou de 0,2% a 0,3% na região tropical, compreendida entre 10º de latitude Norte e 10º de latitude Sul (IPCC, 2004).

De fato existe a previsão de aumento entre 1,4ºC e 5,8ºC na temperatura média global até o final do século XXI, a depender dos processos de trocas de calor, de carbono e de radiação entre os diversos setores do sistema Terra. Com o aquecimento global, aumenta a probabilidade de ocorrência de climas extremos com secas, inundações e ondas de calor freqüentes.

A elevação na temperatura aumenta a capacidade do ar em reter vapor d'água e, conseqüentemente, ocorrerá maior demanda hídrica. Em resposta a essas alterações, os ecossistemas de plantas poderão aumentar sua biodiversidade ou sofrer influências negativas

Visualiza-se diferentes cenários para o clima no futuro. O exercício de projetar impactos climáticos em cultivos anuais é bem mais simples do que projetar este impacto nos cultivos perenes, já que estes últimos apresentam uma maior complexidade. Por exemplo, a fase reprodutiva é mais sensível à altas temperaturas e ao estresse hídrico do que a fase de desenvolvimento vegetativo.

A produção dos frutos pode ser afetada negativamente, principalmente devido a uma redução na qualidade do pólen, com o possível abortamento de frutos. Deve-se ainda considerar que coqueiros cultivados em zonas marginais, onde são frequentemente expostos a breves ou médios períodos de estresse térmico, com temperaturas diurnas mais quentes do que 30-32º C e longos períodos secos (mais de 2 meses com chuvas insuficientes), nestes locais a tendência é que estes períodos fiquem mais intensos.

Deve-se considerar que as variedades de coqueiros cultivadas em diferentes zonas agro-climáticas e de solo irão responder de forma diversa a alterações climáticas. Em algumas áreas os coqueiros podem ser mais vulneráveis do que em outras. Portanto, deve-se compreender que o impacto nas alterações climáticas sobre a cocoicultura não será um fenômeno controlado por um único fator. No Sri Lanka, alguns experimentos foram conduzidos com mudas de coco e sua relação com o CO2. A elevação da concentração atmosférica de CO2 aumentou a taxa fotossintética das mudas em cerca de 25%, no entanto, o efeito sobre o rendimento não pode ser estimada nesses estudos.

Alguns cientistas consideram que levados níveis de CO2 tendem a resultar em mudanças na estrutura da planta, em diferentes escalas. Órgãos vegetais podem aumentar de tamanho, por exemplo aumento da área foliar, aumento da espessura foliar, maior número de folhas, maior área foliar total por planta, caules e ramos com maior diâmetro. O aumento da fotossíntese, aumento na eficiência do uso da água, e redução dos danos decorrentes da ação do ozônio são igualmente conseqüências de quantidades elevadas de CO2.

Em relação aos aspectos de fitossanidade, as alterações climáticas, poderão provocar o aparecimento o agravamento ou não de problemas fitossanitários no coqueiro. Principalmente aumentando a suscetibilidade das plantas ou influenciando os índices de multiplicação dos patógenos. Os efeitos diretos da mudança climáticas podem afetar a arquitetura das plantas e desta forma afetar o microclima da cultura. Copas mais densas tendem a reter mais umidade e com maiores temperaturas o risco de infecção também será maior, favorecendo principalmente os patógenos foliares.

Mudanças no clima também podem causar o surgimento de novas doenças, ou de doenças endêmicas tornarem-se epidêmicas. Isso pode ocorrer devido a sequência de fatores ambientais atípicos em uma população de plantas, por exemplo, longos períodos de seca geralmente favorecem doenças viróticas, e, ao contrário, longos períodos úmidos favorocem as doenças fúngicas e bacterianas.

Deve-se considerar também, o efeito das mudanças climáticas na ação dos insetos vetores em uma população de plantas. Portanto, as mudanças climáticas poderão levar a ocorrência de patógenos pré-existentes ou pode permitir e/ou favorecer a introdução de novos patógenos nas lavouras (Anderson et al., 2004).

A resinose do coqueiro pode ser um exemplo neste sentido. Esta doença foi descrita pela primeira vez no Brasil em 2004, nos coqueirais irrigados do Platô de Neópolis, Sergipe e rapidamente disseminou-se para outras regiões. Hoje há relatos da ocorrência da resinose no Rio Grande do Norte, Pará e Ceará. Essa doença tem por agente etiológico o fungo Thielaviopsis paradoxa (De Seyn) Hölh, importante também na cana-de-açúcar, abacaxizeiro e em outras palmeiras. Este patógeno provavelmente já existia nos coqueirais e algum fator, ambiental ou de interferência do homem, favoreceu a sua ação.

*Dulce Regina Nunes Warwick é pesquisadora da Embrapa Tabuleiros Costeiros

Fonte: Agrolink
Atualizado em 22/12/2009 15:40
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