O mês de abril foi caracterizado pela primeira entrada de massa de ar frio do ano durante à primeira quinzena, inclusive com a ocorrência do fenômeno friagem. A temperatura máxima em Rio Branco no dia 15/04 foi 31,9C e no dia 16/04, depois da entrada da massa fria foi de 23,2C. A Zona de Convergência Intertropical (ZCIT) esteve bastante ativa no decorrer do mês e favoreceu a acumulados significativos de chuvas em parte das Regiões Norte e Nordeste. A difluência da circulação em altos níveis influenciou o tempo em várias partes do País, inclusive provocando temporais localizados. Em alguns casos cavados de ondas curtas em níveis médios juntamente com jatos de altos níveis potencializaram instabilidades causando chuvas fortes em SP e no RJ e alagamentos em algumas localidades de SP.
O mês de abril foi divido em dois períodos com características diferentes: à primeira quinzena, onde praticamente não houve a passagem de frentes frias pelo continente brasileiro, e à segunda quinzena com um aumento na frequência da passagem de sistemas frontais (figura 1). No dia 14 do mês a entrada de uma intensa frente fria no País marca o início do segundo período. Até o fim do mês houve a passagem de mais duas frentes pelo Brasil vindas do sul do continente e uma ciclogênese que deu origem a um terceiro sistema frontal (figura 2). A figura 3 mostra o acompanhamento das frentes em algumas cidades do oeste do País, observando-se que a frente fria do início da segunda quinzena atingiu inclusive a cidade de Porto Velho ? RO.
Figura 1 ? O acompanhamento das frentes pelo litoral ocorre nos horários das 00 e 12 UTC.
Figura 2 ? O acompanhamento das frentes na região central ocorre nos horários das 00 e 12 UTC.
Figura 3 ? O acompanhamento das frentes na região central ocorre nos horários das 00 e 12 UTC.
A precipitação acumulada no período teve anomalias positivas, principalmente nas Regiões Nordeste e Norte (figura 4). Isto se deve principalmente a atuação da Zona de convergência Intertropical (ZCIT), que atingiu a faixa norte da Região Nordeste e norte do PA. A região do centro-sul do PA, no TO e na BA ocorreram chuvas significativas devido a uma zona de convergência de umidade intensificada pelo alinhamento de frentes frias no oceano. Isto ocorreu principalmente nos primeiros quatro dias do mês (figura 5). A maior contribuição do acumulado de precipitação para o Estado de SP e também para o setor oeste do País (no MS, MT, RO e AC), ocorreram nesta primeira quinzena. Essas chuvas foram resultados de cavados nos níveis médios da atmosfera e convergência de umidade em baixos níveis. (vide figuras dos campos em 850 hPa) e difluência da circulação em altos níveis. No segundo período as chuvas se concentraram nas Regiões Norte e Nordeste, influenciadas pela ZCIT, cavados e um pequeno jato no sul da BA e de TO em altos níveis.
Figura 4
Figura 5
Figura 6
As temperaturas máximas ficaram dentro da normalidade em grande parte do País. A figura 7 mostra que na primeira quinzena houve anomalias positivas na Região Sul, principalmente associada à falta de nebulosidade. As anomalias de temperatura máxima observadas em parte de MT, de RO e do AC foram devido à nebulosidade e precipitação ocorridas. Já na segunda quinzena (figura 8) aparecem anomalias negativas de temperatura máxima na Região Sul, em MT, RO e AC associadas à entrada da massa de ar frio que provocou friagem. Isto vale para as temperaturas mínimas também (figuras 9 e 10). No primeiro período, o predomínio de massas de ar seco, devido à presença de um bloqueio, fez com que as temperaturas ficassem ligeiramente acima da média. Já no segundo período a entrada de massas frias declinou as temperaturas.
Figura 7
Figura 8
Figura 9
Figura 10
O campo de pressão médio mensal se caracterizou pelo domínio de dois centros de alta pressão semi-permanentes do Hemisfério Sul, a alta do Oceano Pacífico e a do Oceano Atlântico. No Oceano Atlântico se observa uma área com forte anomalia positiva, o que dá um indicativo de bloqueio e que impediu a passagem de frentes frias pelo continente brasileiro, principalmente na primeira quinzena. Já no Pacífico há uma forte anomalia negativa de pressão mostrando que as frentes atuaram principalmente nas altas latitudes e sobre este oceano (Figura 11). Esse bloqueio pode ser confirmado também observando a figura 1 do acompanhamento das frentes.
Figura 11
A média mensal é praticamente reproduzida na primeira quinzena (figura 12). A posição afastada do continente da anomalia positiva da pressão permitiu o cavamento no campo de pressão indicando a posição de vórtices ciclônicos e cavados, em níveis médios e altos da atmosfera e frentes frias que passaram pelo oceano neste período.
Figura 12
A entrada de uma frente fria no dia 14/04 marca o início do segundo período do mês. Esse sistema vem acompanhado por uma intensa massa de ar frio, que teve um deslocamento bem continental chegando a atingir o sul da Região Norte do Brasil, AC, RO e sul do AM, causando o fenômeno friagem. No campo de anomalia de pressão aparece o reflexo dessa intensa massa fria mostrando anomalia positiva sobre a Região Sul do Brasil, Paraguai, sudeste da Bolívia, extremo oeste de MS e sudoeste de MT e leste de SP (figura 13). No Oceano Atlântico a anomalia positiva foi deslocada para leste e nota-se uma anomalia negativa sobreposta ao cavado indicando a quebra do bloqueio e passagem de sistemas frontais.
Figura 13
O escoamento médio atmosférico em 250 hPa esteve configurado ainda por um padrão semelhante ao de verão com um anticiclone centrado sobre o Brasil e um cavado a leste da Região Nordeste sobre o Atlântico. Na figura 14 percebe-se que o jato esteve quase zonal e situado em latitudes abaixo do paralelo de 35S com dois máximos: um sobre o Pacífico e outro sobre o Atlântico. O ramo do jato sobre o Atlântico esteve localizado em latitudes abaixo de 50S. A posição e inclinação do jato não estiveram favoráveis ao deslocamento para norte das frentes frias. Sobre a região central do continente a anomalia negativa da componente zonal do vento indica um enfraquecimento dos ventos de oeste. Uma forte anomalia negativa também aparece sobre o Atlântico mostrando o deslocamento para sul da corrente de jato. Já sobre a Região Nordeste a anomalia positiva da componente zonal confirma a predominância do cavado a leste da Região.
Figura 14
Na figura 15, referente à primeira quinzena do mês, observa-se uma pequena mudança em relação à média mensal quando o jato subtropical esteve um pouco mais intenso e atuando sobre o continente. O cavado a leste do Nordeste também esteve mais intenso e observa-se uma forte difluência sobre a Região e parte da Região Norte. A difluência do escoamento em altos níveis foi determinante para a ocorrência de chuvas fortes com acumulados significativos em vários locais do País, veja tabela 1.
Figura 15
Já no segundo período do mês, figura 16, o anticiclone e o cavado a leste do Nordeste não se mantiveram bem configurados e o escoamento permaneceu zonal de oeste sobre boa parte do Nordeste. No entanto a circulação de nordeste sobre o litoral norte do Brasil favoreceu a entrada de pulsos da ZCIT e provocou chuvas significativas em algumas áreas, veja tabela 1. Um importante cavado baroclínico aparece sobre o Atlântico tendo associado um ramo do jato subtropical.
Figura 16
O escoamento médio em 850 hPa do mês de abril mostra um anticiclone sobre a Região Sul do Brasil e no campo de anomalia que o jato de baixos níveis não esteve bem configurado, veja figura 17. No entanto a anomalia negativa do vento meridional sobre o MA, PA, AP, TO e RR mostra como a ZCIT esteve ativa e que esta circulação de nordeste adentrou bem no continente. Na primeira quinzena a anomalia negativa de V mostra que a ZCIT atuou e provocou acumulados significativos, figura 18. Nesta figura fica claro uma convergência de umidade desde o oceano até o interior do PA. Isto se configurou, principalmente, nos primeiros quatro dias do mês quando uma frente ficou estacionária entre o ES e o sul da BA e favoreceu o alinhamento de nebulosidade e precipitação na BA, em TO e no PA. Além deste período cavados mantiveram a precipitação nestas áreas e no interior do Nordeste, principalmente nesta quinzena. Na anomalia positiva do vento meridional indica uma convergência que favoreceu ao levantamento e juntamente com a difluência em altos níveis foram responsáveis pelos acumulados de chuva no AC, RO, MT e MS. Na figura 19 percebe-se que também neste período a ZCIT esteve atuando no CE, PI, MA, PA e AP e a convergência ficou deslocada para a AM.
Figura 17
Figura 18
Figura 19
O campo médio de geopotencial em 500 hPa, figura 20, mostra um bloqueio no Oceano Atlântico determinado por uma anomalia negativa na altura do norte da Região Sul e outra área de anomalia positiva ao sul deste. Esta predominância da anomalia positiva indica que não ocorreu propagação de ondas significativas sobre o continente, principalmente no primeiro período do mês. A baroclinia ficou restrito ao Oceano Pacífico onde aparece um forte gradiente. No entanto ainda se manteve o cavado a leste da Região Sul do Brasil, isto se deve principalmente a contribuição da segunda quinzena do mês.
Figura 20
Na figura 21, está o campo médio do geopotencial referente aos primeiros quinze dias do mês e mostra uma intensa anomalia positiva sobre o sul do Atlântico e do continente. Isto é reflexo do bloqueio que impediu a passagem de frentes. Notam-se apenas pequenas ondas a leste do Brasil. Novamente, como na média mensal, uma área de anomalia negativa aparece no sul do Pacífico com forte gradiente de geopotencial. Foi neste período que um cavado de ondas curtas e o jato em altos níveis provocaram chuvas fortes em SP e no RJ, veja tabela 1.
Figura 21
Na figura 22, já se observa uma mudança em relação ao padrão mensal. A anomalia negativa do geopotencial e o cavado melhor configurado nos mostram que este período foi ativo no que diz respeito à passagem de sistemas frontais. Ao mesmo tempo em que a anomalia negativa do Pacífico ficou mais pronunciada, aumentou a área de anomalia negativa e o gradiente de geopotencial ficou mais intenso determinando este período como o mais barocínico do mês.
Figura 22
Casos significativos
A Tabela (abaixo) apresenta um resumo dos principais casos significativos acontecidos no mês de abril.