Centro de Previsão
de Tempo e Estudos Climáticos
Síntese Sinótica do mês de fevereiro de 2007


1 Acompanhamento dos principais sistemas frontais.



Durante o mês de fevereiro de 2007 foram identificados 10 sistemas transientes ao norte do paralelo 40ºS. Destes sistemas, quatro atuaram no território brasileiro e os demais afetaram principalmente o território argentino e uruguaio. O quarto sistema frontal formou-se sobre o Atlântico a leste do PR e apesar de apresentar características subtropicais, seu ramo frio associado conseguiu afetar o tempo significativamente na faixa litorânea que vai desde PR até o RJ, durante os dias 10 e 11. Este sistema deu início a segunda ZCAS que causou chuvas significativas sobre os Estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Em Iguape-SP, por exemplo, registraram-se acumulados diários de 51,5 mm. Já no RJ, o deslocamento deste sistema provocou chuvas fortes que causaram alagamentos e deslizamento de terra, deixando 175 pessoas desalojadas na baixada fluminense. O segundo sistema mais significativo do mês foi o quinto, que se deslocou entre a Argentina (incluindo o interior) e o sudoeste do Brasil. Este sistema diferenciou-se dos outros pela sua trajetória continental, chegando até Santa Cruz na Bolívia e atuando no sul de MS. Pelo leste do País, o sistema deslocou-se até o PR e perdeu suas características. O deslocamento deste sistema pelo RS provocou chuvas em vários municípios deste Estado entre os dias 16 e 17. Em Santa Vitória do Palmar, por exemplo, registraram-se acumulados diários de 129,9 mm. Os outros sistemas avançaram até o Uruguai e deslocaram-se zonalmente pelo Atlântico. O segundo sistema também atuou no sul do RS, mas não causou eventos extremos.


Zona de Convergência do Atlântico Sul-ZCAS:


Ao longo deste mês foram identificados dois períodos com configuração de ZCAS. O primeiro iniciou dia 30 de janeiro e persistiu até o dia 9 com um período de enfraquecimento entre os dias 05 e 07. Este evento teve uma duração aproximada de 10 dias e apresentou um padrão sinótico clássico de ZCAS, causando chuvas significativas em várias localidades dos estados de SP, MG, GO, MT e PA. Por exemplo, entre os dias 7 e 8 a cidade de São Paulo registrou um acumulado diário de chuva de 103,3 mm o que provocou grandes transtornos à população. Entre os dias 6 e 7 a cidade de Diamantino (MT) registrou um acumulado diário de 140 mm. Em algumas localidades dos Estados de GO, MT e PA observaram-se acumulados diários que oscilaram entre 80 e 100 mm.
Entre os dias 12 e 17, verificou-se outro evento que teve seis dias de duração. No início de sua atuação favoreceu temporais em SP e RJ, porém sua maior influência foi identificada um pouco mais ao norte, causando chuvas entre MG e BA . Por exemplo, entre os dias 13 e 14, as cidades de Unaí (MG) e Lençóis (BA) registraram acumulados diários de 86,6 mm e 116,6 mm, respectivamente.

A Figura 1 mostra a evolução dos sistemas transientes em superfície.



Figura 1 ? Animação das análises (00 e 12 Z) em superfície.


A Figura 2 mostra a evolução das ondas em altos níveis durante o mês de fevereiro. Nesta carta observa-se sistemas ciclônicos (vórtices e cavados) e também sistemas anticiclônicos (crista). Além das correntes de Jato.



Figura 2 ? Animação da análise (00 e 12 Z) do escoamento em 250 hPa da troposfera.


Veja um resumo das ocorrências meteorológicas significativas do mês de fevereiro.




2. Anomalias de precipitação e temperatura.

A Figura 3 mostra que as anomalias positivas da precipitação mais significativas ficaram concentradas principalmente no norte da Região Sudeste, em parte do Centro-Oeste e em grande parte do Nordeste do Brasil. As chuvas significativas observadas nessas regiões foram provocadas pela atuação de dois episódios de ZCAS, onde o segundo deles ficou concentrado ao norte de sua posição habitual.
As anomalias negativas de chuva estiveram concentradas em boa parte da Região Sudeste do Brasil e em parte da Região Norte, principalmente nos Estados do AC, RO, AM e AP. Já nas demais áreas do Brasil, as anomalias de chuvas ficaram dentro da variabilidade natural do clima.



Figura 3


As Figuras 4 e 5 mostram as anomalias mensais de temperatura máxima e mínima, respectivamente.

Os principais núcleos de anomalias positivas de temperatura ficaram concentrados no centro-norte do AM, em RR, GO, em SP, RJ e na PB. Esses valores positivos de anomalias estiveram relacionados diretamente com a ausência de precipitação. No nordeste e leste de SP, registraram-se anomalias de mais de 5ºC. Já em alguns pontos de MG, BA, PI e CE, observaram-se anomalias negativas de temperaturas máximas devido às abundantes chuvas registradas nessas áreas. O campo de anomalia de temperatura mínima mostrou um predomínio de valores positivos na maior parte do Brasil, com alguns núcleos mais significativos concentrados no leste de SP, em MS, P,A e AM.


Figura 4




Figura 5





3. ANÁLISE DOS CAMPOS MENSAIS DE CIRCULAÇÃO


3.1. Altos níveis


Figura 6


A Figura 6 mostra o campo de anomalia mensal do vento zonal em 250 hPa. Nesta figura, observa-se a anomalia de oeste em torno do paralelo 30ºS, devido à maior intensidade do Jato Subtropical (JST), em relação à climatologia. Seu ?jet streak? configurou-se entre o Pacífico e o continente, no norte da Argentina, e sua saída entre o leste da Argentina o Sul do Brasil, Paraguai e Uruguai. Devido aos cavados baroclínicos e duas "conseqüentes" frentes subtropicais que avançaram para latitudes mais baixas, verifica-se também uma anomalia de oeste entre o Sudeste e a BA. Verifica-se uma anomalia de leste provocada pela posição e intensidade da Alta da Bolívia-AB no centro-oeste do Brasil e demais países vizinhos. O Jato Polar Norte (JPN) tem um ramo bastante intenso sobre o Atlântico, em torno de 50ºS, associado aos freqüentes sistemas transientes que se originaram nessas latitudes. Já sobre o Pacífico, o JPN apareceu configurado um pouco mais ao sul (em torno de 67ºS) e com curvatura anticiclônica, indicando um forte bloqueio sobre o Pacífico Sudeste.
O Anticiclone Subtropical do Atlântico Sul (ASAS) também reflete sua intensificação em altitude, em torno de 45ºS, ocorrida principalmente na segunda quinzena.
O Vórtice Ciclônico de Altos Níveis (VCAN), característico do Nordeste, apresentou anomalias positivas de vento zonal em sua borda norte, sendo este um indicativo da persistência deste sistema na região.
Entre os dias 26 de janeiro e 11 de fevereiro, o VCAN permaneceu atuando entre o Atlântico e o leste do Nordeste, apresentando um enfraquecimento a partir do dia 12, aproximadamente. No entanto, este sistema não penetrou significativamente sobre o continente, devido à intensa circulação anticiclônica que predominou sobre o Brasil. O fato do VCAN não ter penetrado no continente e a Alta da Bolívia ter ficado mais intensa determinou um padrão de circulação em altitude que favoreceu a divergência de massa em parte de MG e em boa parte do Nordeste do Brasil. Isto favoreceu a intensificação da convergência em superfície e, como conseqüência, o aumento das precipitações nessas áreas.

3.2. Níveis médios



Figura 7


A Figura 7 mostra uma intensa anomalia negativa de altura geopotencial no Atlântico Sul, mais especificamente a sudeste das Ilhas Malvinas. Esta anomalia ciclônica confirma o deslocamento zonal de significativos ciclones extratropicais por toda essa região.
No Oceano Pacífico Sul, a oeste do meridiano 80ºW e ao sul do paralelo 40ºS, observa-se uma intensa área com anomalias positivas de altura geopotencial, determinando um padrão de circulação característico de bloqueio. No Pacífico, também se verificou um cavado em torno de 30ºS/88ºW, indicando a presença de freqüentes cavados e/ou vórtices nesta região. Estes sistemas persistiram nesta posição, enviando pulsos ciclônicos entre a Argentina e o RS e provocando chuvas fortes em alguns pontos do centro-norte da Argentina, Paraguai, Uruguai e parte do Sul do Brasil. No Pacífico, o padrão de circulação resultante deste bloqueio favoreceu a ocorrência de freqüentes incursões de ar frio sobre o sul do continente sul-americano, principalmente ao sul do paralelo 35ºS. Esta característica na circulação da atmosfera refletiu o sinal do fenômeno " El Niño".
Outra característica interessante observada neste campo de anomalias é a presença de um anticiclone anômalo no Oceano Atlântico, cuja crista associada estende-se até o paralelo 35ºS aproximadamente. Esse sistema ficou mais intenso e próximo ao continente durante os últimos 10 dias do mês, fazendo com que boa parte da Região Sudeste sofresse a influência de uma massa de ar quente e seca. A atuação deste sistema de alta pressão justifica a presença de anomalias negativas de precipitação sobre boa parte do Sudeste do Brasil.
No interior de MG, no RJ e parte do nordeste de SP, observaram-se anomalias negativas de altura geopotencial, devido à atuação de dois vórtices ciclônicos que penetraram nessa região nos dias 18 e 24. Esses sistemas de baixa pressão favoreceram a ocorrência de chuvas fortes em alguns pontos de MG e de SP.
Verifica-se, também, uma anomalia anticiclônica sobre o oeste e norte do Brasil associada à intensidade da AB.

3.3 ? Escoamento em 850 hPa



Figura 8


Um fato importante observado em 850 hPa (Figura 8) é a significativa anomalia de vento de norte sobre boa parte da Região Norte do Brasil e também sobre MT.
Este escoamento foi responsável por fortes chuvas entre PA, TO, MA, PI e CE, pois advectava bastante umidade da ZCIT. No entanto, também se observaram anomalias de norte sobre RR e AM, porém sem advectar umidade suficiente, provavelmente devido ao posicionamento e à intensidade da ZCIT.
No sul do Brasil e sobre a Bolívia, verifica-se anomalia de vento de sul associada à entrada de dois sistemas transientes. Um na metade da primeira quinzena, formado com suporte dinâmico no JS e com deslocamento marítimo, e outro no início da segunda quinzena, com deslocamento pelo interior do continente. No extremo sul do continente, também se configurou uma anomalia forte de sul, caracterizando a entrada de ar frio nesta área.

3.4 ? Pressão ao Nível Médio do Mar e Vento à Superfície



Figura 9


O campo de anomalia de pressão ao nível médio do mar (Figura 9) indicou valores significativos sobre o Pacífico e o Atlântico. A intensa anomalia positiva observada no Pacífico (com reflexo em 500 hPa) esteve associada ao posicionamento mais ao sul da Alta Subtropical do Pacífico Sul (ASPS), cuja atuação foi determinante para o deslocamento dos sistemas transientes ao sul do paralelo 35ºS, como comentado anteriormente. Este sistema esteve em fase com a alta anômala observada no nível de 500 hPa, indicando uma configuração de bloqueio com fortes características dinâmicas e barotrópicas.
A pista de vento sul observada durante grande parte do mês sobre o centro sul do continente causou a entrada de sistemas transientes associados às massas de ar frio significativas na Argentina.
No extremo sul do Atlântico, observaram-se anomalias negativas de pressão devido ao deslocamento zonal dos sistemas transientes, alguns associados a intensos ciclones extratropicais.

3.5 ? Comparação de alguns campos de anomalias em dois períodos no mês, divididos conforme as variações no padrão sinótico.



Neste mês verificou-se dois períodos com diferentes características, principalmente entre o Atlântico e o leste do Brasil. O primeiro entre 01 e 20. Durante este período três sistemas transientes avançaram em nosso território, como já mensionado no ítem 1. Estes sitemas, além de cavados Baroclínicos, refletiram na anomalia levemente positiva entre o Sul e o leste do Sudeste no campo de geopotencial em 500 hPa (Figura 10) . Mas em superfície (Figura 11) teve-se um período de normalidade, indicando que estes sistemas foram principalmente em altitude associados ao Jato Subtropical, ou seja frentes de altitude, conhecidas também como frentes subtropicais. Estes sistemas são típicos do verão. No segundo período, de 21 à 28, ou seja em apenas 10 dias, já verifica-se a alteração na anomalia no leste do Brasil em médios níveis da troposfera (Figura 11) que persistirá em março. A intensificação do sistema de alta em médios níveis, refletiu em superfície (Figura 13), como uma forte subsidência no Sudeste, norte do Sul e leste do Centro-Oeste. Isto, refletiu também em um aumento das temperaturas e em um secamento do ar em superfície, comuns na época seca, principalmente no Sudeste. Consequentemente as chuvas diminuiram provocando anomalias negativas de chuva principalmente entre sul de Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo (Figura 3) e as anomalias de temperatura máxima ficaram positivas também nesta área (Figura 4).
Já sobre a Argentina, entre os dias 21 e 28 a área ciclônica intensificou-se, até devido a intensificação da área de alta sobre o Atlântico e a continuidade da intensa alta no Pacífico (também já comentados anteriormente). Isto reflete intensas massa de ar frio, associadas a significativos ciclones extratropicais que avançaram sobre este país.


Figura 10




Figura 11



Figura 12



Figura 13




Atualizado em 01/03/2007 11:15

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