1 Acompanhamento dos sistemas frontais.
O mês de maio de 2007 teve como característica mais significativa o aumento na frequência de incursões de massas de ar de origem polar que provocaram fortes quedas nas temperaturas em boa parte do continente sul-americano.
Foram identificados sete sistemas frontais que atuaram entre Argentina, Uruguai, Paraguai, Bolívia e Brasil. A primeira frente fria atuou no continente no primeiro dia do mês chegando a influenciar o tempo apenas no Estado do Rio Grande do Sul no dia seguinte. Mesmo assim, provocou temporais em algumas regiões deste Estado causando duas mortes e 120 casas destelhadas. Esse sistema não conseguiu penetrar mais pelo interior do Brasil devido à presença de um intenso anticiclone na troposfera média que predominou sobre o Brasil nos primeiros dias do mês. Por isso foram registrados vários dias com baixos valores de umidade relativa do ar no interior do país. Porém, o segundo sistema frontal conseguiu quebrar esta barreira e avançar até o sul da Amazônia causando um evento de friagem em torno do dia nove e as temperaturas mais baixas do ano, até então, em vários pontos do Brasil. Este sistema também causou temporais no Sul do País.
Na continuação apresentam-se alguns casos mais signifcativos registrados durante este evento:
- ventos fortes que chegaram a 51,8 km/h durante o dia 4 em Pelotas (RS).
- 74,2 mm em Rio Grande entre os dias 4 e 5.
- 74,9 mm em Santa Vitória do Palmar, entre os dias 5 e 6.
- primeiro episódio de neve na Serra Catarinense na noite do dia 8 em Urupema (SC).
- chuvas fortes no aeroporto de Santos Dumont (RJ).
- rajadas de 68,5 Km/h na Bahia no final do dia 10.
O terceiro sistema frontal deslocou-se apenas pelo RS entre os dias 11 e 13 causando algumas chuvas no Estado. No dia 15 um novo sistema frontal (quarto) atuou no sul do continente chegando ao Brasil no dia 16. Esse sistema frontal avançou pelo o Sudeste, Mato Grosso do Sul e sul da Bolívia. Esta frente fria também causou chuvas significativas no Sul do Brasil,como por exemplo em Chapecó-SC, que registrou um acumulado diário de 104 mm. Quando chegou ao Sudeste, este sistema adquiriu características subtropicais, porém causou chuvas significativas em algumas localidades de São Paulo e Rio de Janeiro.
O quinto sistema transiente foi bastante significativo e novamente esteve associado a uma forte incursão de ar frio no continente.
Esse sistema entrou no Brasil a partir do dia 22, provocando neve na Serra Catarinense durante o dia 24 e friagem no sul da Amazônia entre os dias 24 e 25. Nestes dias, o deslocamento do ramo frio deste sistema causou chuvas significativas em Salvador. No dia 24 a temperatura máxima em Porto Velho-RO, foi de 26 graus na madruga. No decorrer da tarde a temperatura não passou dos 21 graus na capital de Rondônia (dados de metar). Em Vilhena-RO a temperatura caus de 21 graus às 10h do dia 23 para 13 graus neste mesmo horário no dia 24. Na última semana do mês, uma nova onda de frio castigou o continente sul-americano provocando fortes declínios de temperaturas e recordes históricos de temperaturas mínimas extremas. O sistema frontal associado a esta nova onda de frio deu origem a um novo episódio de friagem, causando também chuvas significativas na Bahia. Em Vilhena verificou-se uma queda de 6 graus na temperatura no início da manhã, entre os dias 29 e 30. Após a passagem da frente fria pelo Sul do Brasil, o transporte de umidade pelos ventos de sudeste em baixos níveis e o deslocamento de um cavado secundário favoreceram a ocorrência de neve na Serra Gaúcha e Catarinense (em Canela e Urupema, respectivamente.
Para acompanhar destalhes dos principais eventos meteorológicos do mês pode-se visualizar a tabela de casos siginficativas disponibilizada abaixo.
A Figura 1 mostra a evolução dos sistemas transientes em superfície.
Figura 1 ? Animação das análises (12 Z) em superfície.
A Figura 2 mostra a evolução das ondas em altos níveis durante o mês de abril. Nesta carta observa-se sistemas ciclônicos (vórtices e cavados) e também sistemas anticiclônicos (crista). Além das correntes de Jato.
Figura 2 ? Animação da análise (12 Z) do escoamento em 250 hPa da troposfera.
Veja um resumo das ocorrências meteorológicas significativas do mês de maio.
2. Anomalias de precipitação e temperatura.
A figura 03 mostra a anomalia de precipitação do mês de maio e podemos notar que ocorreram valores acima da média mensal nas Regiões Sul, partes do Sudeste, da Região Nordeste e da Região Norte.
Na Região Sul as chuvas ficaram concentradas entre o norte do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e o centro e sul do Paraná, onde os valores chegaram a ser superior a 100mm em algumas localidades.
Outra região de intensa precipitação e com anomalias positivas foram registradas na Região Norte, sobretudo no oeste e sul do Amazonas e entre o centro e norte de Roraima.
Na Região Nordeste as chuvas acima da média ficaram concentradas entre Sergipe e Alagoas. Na faixa leste do Nordeste chegou a ser registrado chuvas fortes que chegaram a causar transtornos em cidades como Aracajú e João Pessoa.
Chuvas abaixo da média foram registradas ao longo da faixa norte da Região Nordeste, entre o Maranhão (exceto no noroeste deste Estado) e o Rio Grande do Norte.
Chuvas abaixo da média, ou próximas da média foram observadas na região central de Minas Gerais e em grande parte do Centro-Oeste. Chuvas acima da média foram registradas entre o centro e norte de São Paulo, partes do Vale do Paraíba e da faixa leste paulista.
No geral as chuvas que ocorreram nas Regiões Sul e Sudeste foram ocasionadas pela passagem de sistemas frontais. No Rio Grande do Sul houve um CCM (Complexo Convectivo de Mesoescala) que causou chuvas no dia 06, antecedendo a passagem de uma frente fria.
As chuvas da faixa leste do Nordeste foram causadas por 2 motivos, o primeiro foi pelo avanço de sistemas frontais que chegaram até lá, como foi o caso dos 3 sistemas frontais que atingiram o país. (Dia 11 uma frente fria chegou até Ilhéus pelo oceano, dia 26 um sistema frontal havia chegado até Salvador e dia 31 também). O outro motivo seria distúrbios atmosféricos de leste. Um exemplo disto foi o fim do mês, que foi marcado por chuvas intensas entre Sergipe e Alagoas. No geral observam-se muitas nuvens baixas e médias neste período e que causam chuvas contínuas, trazendo transtornos como inundações.
As anomalias negativas de precipitação identificadas em grande parte do interior e norte do Nordeste, atingindo boa parte do Pará, estão associadas com uma intensa área de circulação anticiclônica que predominou sobre a região e que também está associada com baixos valores de umidade relativa em alguns períodos como o começo do mês, entre o Tocantins, centro e norte de Goiás, oeste da Bahia, e sudeste do Pará, apesar que houve períodos de chuvas acima da média por exemplo no sul do Maranhão, por conta de instabilidades que causaram chuvas de forma isolada.
Figura 3
Foram registradas anomalias negativas de temperatura máxima principalmente na Região Sul, onde inclusive ocorreram geadas em grande parte da Região, ver figura 04. As massas de ar frio que atingiram o Brasil também foram responsáveis pelo fenômeno de friagem, podemos notar anomalias negativas no sul de Mato Grosso, sul de Rondônia e em boa parte do Acre.
As temperaturas máximas ficaram acima da média sobre o norte de Minas Gerais, sul e oeste da Bahia, grande parte de Goiás, no Tocantins, nordeste de Mato Grosso e interior do Nordeste. Esta região foi caracterizada pela presença de uma crista em 250hPa e também em 500hPa, o que inibiu a formação de nuvens (exceto no momento da passagem dos sistemas frontais mais intensos) e que manteve maior quantidade de dias com céu claro e predomínio de sol. No começo do mês foram registrados vários dias de tempo seco e de umidade relativa baixa, foram registrados valores abaixo de 30%.
Figura 4
O mesmo podemos notar nas anomalias de temperatura mínima do mês, figura 05. Valores negativos de anomalia foram registrados entre o Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, mas principalmente nos dois primeiros Estados. No Paraná estas anomalias negativas concentraram-se no sudoeste, nas demais áreas os valores apesar de negativos, foram mais próximos da média.
Anomalias negativas de temperatura também foram registradas no Centro-Oeste, principalmente no oeste de Mato Grosso do Sul, sudoeste e sudeste de Mato Grosso e no sul de Goiás, atingindo também o sul de Rondônia e boa parte do Acre. Entre os dias 07 e 11 de maio o avanço de uma frente fria provocou o segundo episódio de friagem do outono. Foi com este sistema frontal que ocorreu o primeiro episódio de neve de 2007, registrado em Urupema. Esta massa de ar frio também causou geada que foi registrada em Santa Catarina.
Outras 2 massas de ar frio intensas atingiram o país e causaram queda acentuada nas temperaturas. Uma delas foi entre os dias 23 e 26 de maio, responsável também por neve em partes da Região Sul e por inclusive geada.
Esta massa de ar frio foi reforçada por mais uma massa de ar frio no fim do mês, por volta do dia 28.
As anomalias de temperatura mínima foram positivas em grande parte do Pará. Apesar da entrada das massas de ar frio, as anomalias foram positivas no centro, sul e partes do oeste de São Paulo.
Dez recordes e destaques da onda de frio da última semana de maio
Temperatura mais baixa em Neuquén na Patagônia (Argentina) para qualquer época do ano desde 1995, superando até mesmo a onda de frio de julho de 2000. Fez 10,4ºC abaixo de zero.
Primeira ocorrência de neve documentada em Bahia Blanca até hoje no mês de maio e a primeira desde o ano 2000 em qualquer época do ano.
Maior precipitação de neve em Monte Hermoso (Província de Buenos Aires) desde as décadas de 60 e 80.
Ocorrência de neve nos arredores de Mar del Plata, o que havia ocorrido recentemente apenas em julho de 2004 e agosto de 1991.
Menor sensação térmica na cidade de Buenos Aires dos útimos 36 anos.
Menor temperatura mínima na capital argentina no mês de maio desde 29 de maio de 1962.
Primeira precipitação de neve na cidade de Córdoba em maio desde 1971.
Primeira precipitação de neve na cidade de Mendoza desde junho de 2000.
Temperatura máxima em Porto Alegre de 10,0ºC na estação oficial da cidade, constituindo-se na menor temperatura máxima na capital gaúcha desde o começo das observações meteorológicas na cidade no ano de 1910.
Menor temperatura mínima em São Leopoldo para o mês de maio desde 1993 (3,6ºC) e menor máxima em maio desde a abertura da estação na cidade em 1987 (11,6ºC).
Menor temperatura mínima em São Joaquim no mês de maio desde 1968 e menor máxima para o mês desde 1990.
Figura 5
3. ANÁLISE DOS CAMPOS MENSAIS DE CIRCULAÇÃO
3.1. Altos níveis
A figura 06 mostra o escoamento em 250hPa e podemos observar a anomalia de vento zonal neste nível da atmosfera. No geral predominou a circulação anticiclônica entre grande parte do Nordeste, Região Norte e entre o centro e norte da Região Centro-Oeste. No entanto, na Região Sul e no sul da Região Centro-Oeste, atingindo todo o Paraguai, norte da Argentina, sul da Bolívia e o Uruguai, observamos a presença de uma intensa área de anomalias positivas de vento zonal indicando as regiões de atuação do Jato Subtropical e do Jato Polar Norte. O fato do Jato Polar Norte ter chegado em latitudes mais baixas e no geral acoplando-se com o Jato Subtropical indica a entrada de intensas massas se ar frio que ocorreu neste mês. A região de ventos mais intensos localiza-se no Paraguai e atinge o oeste do Paraná e de Santa Catarina, além do noroeste do Rio Grande do Sul. A figura 6a mostra a segunda quinzena, que foi o período de maior intensidade dos ventos zonais (jatos) e que corresponde ao período em que atuou 2 massas de ar frio intensas sobre o país.
Figura 6
Figura 6a
3.2. Níveis médios
Ao analisarmos a anomalia de altura geopotencial do mês (figura 07), observamos valores negativos em grande parte do centro, norte e noroeste da Argentina, no Uruguai, sul do Paraguai e da Bolívia, centro-norte do Chile e quase toda a Região Sul do Brasil. Estas anomalias negativas de altura geopotencial estão diretamente relacionadas com a entrada das massas de ar frio sobre a região e a formação de áreas baroclínicas.
Figura 7
3.3 ? Escoamento em 850 hPa e pressão em superfície
Ao longo do mês observou-se valores positivos de anomalia de vento meridional atingindo a Região Sul, o norte da Argentina, o Paraguai e sul da Bolívia, ver figura 08. Foram observados valores positivos de anomalia em partes da faixa leste do Brasil e partes da região central e todo o Nordeste e o norte da Região Norte.
As linhas de corrente mostram uma área de circulação anticiclônica com centro sobre o Sudeste (leste de Minas Gerais e Espírito Santo) que influenciou o sul das Regiões Nordeste e Norte, além de grande parte do Centro-Oeste, atingindo também o norte da Região Sul.
Os valores mais significativos de anomalia de vento meridional em 850hPa foram registrados entre os dias 16 e 31 de maio, quando observamos a massa de ar frio mais intensa do mês. Entre os dias 22 e 31 de maio foram registrados intensos valores positivos de anomalia sobre o Paraguai, sul da Bolívia e atingindo a Região Centro-Oeste do país, sobretudo Mato Grosso do Sul. Entre os dias 22 e 24 de maio um sistema frontal atingiu o país e pelo litoral chegou até Vitória do Espírito Santo, pelo interior o sistema chegou até Januária (MG), até mesmo em Tabatinga (AM) foi observado este sistema frontal, indicando a ocorrência de friagem. Esta massa de ar frio também foi reforçada por uma nova massa de ar frio que atingiu o país entre os dias 27 e 30 de maio, quando também observou-se o sistema atingindo Tabatinga (AM).
Figura 8
Ao analisarmos a anomalia de pressão em superfície do mês de maio, observamos valores positivos associadas à incursão destas massas de ar frio que ocorreram ao longo do mês, figura 09. Os valores variaram de 7 no extremo sul da Argentina até +2 entre a Argentina, Bolívia e extremo oeste de Mato Grosso do Sul. Sobre o Oceano Atlântico observamos uma área com anomalias negativas por volta de 35S/25W associado a um intenso cavado. Esta região indica a propagação de ciclones que juntamente com as regiões de alta que atingiram o continente criaram pistas de vento do quadrante sul no decorrer do mês quando da entrada de sistemas frontais intenso, atingindo grande parte do país.
Figura 9
Comportamento da circulação atmosférica sobre o Hemisfério Sul
O aumento na freqüência de incursões de massas de ar polar sobre o continente sul-americano pode-se explicar parcialmente mediante a análise da circulação atmosférica predominante sobre o hemisfério Sul. A figura (10) mostra o campo médio mensal de anomalia de altura geopotencial em 500 hPa sobre todo o hemisfério. Pode-se identificar um máximo de anomalia sobre o oceano Pacífico, estendendo-se desde o continente australiano até o sul do continente sul-americano.
Dois máximos relativos de menor proporção também são observados a oeste da Austrália e a sudeste do continente africano.
Sobre a América do Sul pode-se observar anomalias negativas estendendo-se desde o Pacífico até o Atlântico e passando pelo centro-norte da Argentina e o sul do Brasil. Estas anomalias negativas indicam que os sistemas baroclínicos atuaram de maneira significativa sobre essas regiões refletindo a freqüente entrada de ciclones migratórios associados a sistemas frontais.
Sobre o Pacífico leste, próximo do continente sul-americano, observa-se uma configuração de Tipo Bloqueio representada pelo máximo de anomalia próximo dos 50S e do mínimo de anomalia próximo dos 30S. Este comportamento anômalo faz com que os sistemas migratórios em superfície adquiram um deslocamento meridional e continental. Desta maneira o ar frio associado a esses sistemas podem atingir latitudes mais baixas e em conseqüência provocar fortes declínios de temperatura.
Ao analisarmos a circulação atmosférica de forma quinzenal (Figura 10a e 10b), nota-se algumas pequenas diferenças.
A figura correspondente à primeira quinzena (Figura 10a) mostra o bloqueio no Pacífico na mesma posição que a observada na média mensal. Cabe ressaltar que durante esse período observou-se apenas uma forte onda de frio sobre o continente sul-americano.
A análise do campo de anomalia correspondente à segunda quinzena mostra o bloqueio mais intenso e deslocado um pouco mais ao norte em relação à primeira quinzena. Isto fez com que as incursões de ar frio registradas neste período atingissem latitudes mais baixas.
Na África do Sul e na Austrália observa-se um comportamento bastante semelhante ao observado em América do Sul.
Outra característica interessante que merece ser ressaltada é o número de onda predominante durante o mês. O campo de anomalia em 500 hPa permite identificar um padrão de onda 4 ou 5 aproximadamente sobre latitudes médias. Isto faz com que os sistemas (cavados e cristas) passem com maior freqüência sobre o continente.
Figura 10
Figura 10a
Figura 10b
O campo de anomalia média mensal e quinzenal de altura geopotencial em 1000 hPa (Figuras 11, 11a e 11b) mostra um reflexo do campo de altitude. Pode-se observar, para ambas as quinzenas, um predomínio de anomalias positivas sobre boa parte de continente sul-americano. Isto é um reflexo da grande quantidade de anticiclones migratórios que atuaram sobre esse continente. Nota-se também anomalias positivas próximas da Península Antártica, indicando que as massas polares que acompanhavam os anticiclones migratórios vinham atravessando o continente sem interagir com o oceano. Desta maneira, o ar frio chegava até latitudes mais baixas conservando suas propriedades.
Figura 11
Figura 11a
Figura 11b