Centro de Previsão
de Tempo e Estudos Climáticos
Síntese sinótica do mês de agosto de 2007

1. Acompanhamento dos sistemas frontais em Agosto 2007.

Neste mês de agosto, nove frentes frias atuaram no Brasil (Figura 1). A atuação destes sistemas ficou restrita ao Sul do País durante grande parte do mês. No entanto, a última frente fria deslocou-se pelo território brasileiro conseguindo atingir latitudes mais baixas, principalmente pelo interior do País. Esta frente fria causou o único evento de friagem no sul da Amazônia, chegando até o Acre no dia 27.
Os demais sistemas transientes atuaram, principalmente, na Região Sul, onde os acumulados mensais de chuva ficaram acima da média no RS. Alguns destes sistemas formaram-se sobre o Sul do País, causando ventos mais significativos como a onda frontal que se formou entre os dias 03 e 04 entre RS e Uruguai. Este sistema causou chuvas significativas no Planalto Catarinense e no norte do RS. Além disto, durante a formação do ciclone, os ventos máximos chegaram a 60 km/h no Chuí-RS. Esta frente fria chegou até o RJ e, embora não tenha provocado chuvas significativas no Sudeste, propiciou a ocorrência de rajadas de vento que chegaram a 60 km/h na capital fluminense. A segunda onda frontal causou neve no Planalto Catarinense no dia 7, área na qual a temperatura mínima chegou a 5 graus negativos em São Joaquim-SC, na madrugada do dia 08. Este sistema deslocou-se pela costa até o Litoral Norte de SP.
A onda frontal que se formou entre os dias 09 e 10 entre o nordeste da Argentina, RS e Uruguai também causou ventos fortes, tanto antes de sua formação (entre Bolívia e PR) quanto no início de sua atuação (entre Uruguai e RS). Este sistema também causou chuvas significativas entre o Uruguai e o RS e, novamente, chegou ao RJ causando rajadas de vento no dia 11. Neste mesmo dia, a massa de ar frio pós-frontal e a forte perda radiativa favoreceram a ocorrência de geada no RS. Em Uruguaiana registrou-se 0,6 graus positivos na madrugada deste dia. No dia 14, observou-se um novo sistema frontal deslocando-se pela Argentina. Esta frente fria deslocou-se pelo Sul do Brasil entre os dias 15 e 18, atuando até o PR. No dia 20, verificou-se uma onda frontal formando-se entre a costa do RS e de SC. Este sistema provocou rajadas de vento de até 80 km/h no Rio Grande-RS, (fonte: EPAGRI-CIRAM). Este sistema também chegou até o norte do RJ. Nos dias 23 e 24, outro processo ciclogenético foi observado entre RS e Uruguai. A formação deste sistema causou ventos de até 90 km/h no RS. No final do dia 24, uma frente fria, que se deslocou pela Argentina e Uruguai, acoplou-se à onda frontal no litoral de SC, deslocando-se pelo Oceano. A última frente fria do mês originou-se de um ciclone que se formou na costa do RS. Este sistema esteve associado a uma significativa massa de ar frio que causou temperaturas negativas na Serra Catarinense no dia 28 e o evento de friagem no sul da Amazônia.


Figura 1 ? Animação das análises (12 Z) em superfície.



Figura 2 ? Animação da análise (12 Z) do escoamento em 250 hPa da troposfera.


A carta de altos níveis (250hPa, Figura 2) apresenta o deslocamento de cavados e cristas sobre o Brasil. Assim como também, mostra o padrão dos Jatos Subtropical, Polar Norte e Polar Sul, os quais estão associados a passagem de sistemas transientes e a formação de ondas frontais sobre a América do Sul, e em especial nas latitudes acima de 30S.

Veja um resumo das ocorrências meteorológicas significativas do mês de agosto.





2. Análise dos campos mensais de circulação


Analisando, em altos níveis da troposfera (250 hPa), o campo de linha de corrente e anomalia mensal da componente zonal do vento (Figura 3), notamos o padrão anticiclônico atuando sobre grande parte do Brasil e cujo núcleo está centrado no sudeste do AM de onde se estende uma crista até o Sul do Brasil. O comportamento de anomalia positiva da Componente Zonal do vento sobre o continente ficou restrito à Região Sul do Brasil, centro-sul do Paraguai, Uruguai, Norte da Argentina e do Chile, indicando o posicionamento médio dos Jatos Subtropical e Polar Norte sobre a América do Sul neste período. Anomalia positiva também é observada entre os paralelos 38 e 63S sobre o oceano. Nota-se a atuação de um cavado a leste da Região Nordeste na altura do Estado da BA. Este sistema favoreceu o levantamento, condição que auxiliou a manutenção da nebulosidade e a instabilidade em algumas áreas do litoral nordestino.

A Figura 4 mostra o comportamento do geopotencial e a anomalia deste campo em 500 hPa. Pode-se notar sobre grande parte do centro-sul do Brasil anomalia positiva, principalmente em grande parte do Sudeste, PR, nordeste de SC. Este comportamento reflete, durante praticamente todo o mês de agosto, a atuação de uma circulação anticiclônica com predomínio de crista sobre boa parte do interior do país. Esta condição associada ao comportamento atmosférico citado anteriormente fortaleceu, ainda mais, a subsidência e a compressão adiabática, contribuindo, desta forma, para a inibição da nebulosidade, o aumento das temperaturas e a redução da umidade do ar, além de inibir o avanço dos sistemas frontais e a incursão de massas de ar frio para latitudes mais baixas. A anomalia negativa verificada sobre o Centro-Norte da Argentina e Chile, o deslocamento do cavado observado na mesma área contribuiu para a formação de vórtices ciclônicos que atuaram próximo à Cordilheira dos Andes (médio e baixo níveis) garantindo a forte instabilidade, as fortes chuvas e as baixas temperaturas ocorridas, principalmente, na Região Andina. O deslocamento destes sistemas para leste favoreceu a formação das ondas frontais que atuaram no Sul do Brasil.

No nível de 850 hPa a anomalia negativa quinzenal do geopotencial (Figura 5) fica restrita a área oceânica ao sul do paralelo 60S. Abaixo desta latitude são verificadas anomalias positivas inclusive na faixa centro-leste do Brasil. Este comportamento de anomalia nesta parte do país associado ao escoamento anticiclônico em níveis médios contribuía para a advecção de umidade do oceano para o continente (efeito de brisa), principalmente na primeira quinzena (Figura 6) período em que a anomalia positiva apresentou-se mais intensa. Fortes ventos de norte em baixos níveis garantiam a advecção de ar quente de latitudes mais baixas para o Norte da Argentina, Paraguai e Sul do Brasil mantendo as áreas de instabilidade nesta parte do continente e favorecendo a inibição do avanço dos sistemas frontais para o interior do Brasil, garantindo a manutenção da massa de ar seco em boa parte do Centro-Oeste, do Sudeste, em parte do Norte e do Nordeste do Brasil onde foram observados valores de umidade abaixo de 20% em diversas localidades.


Figura 3 ? Linha de Corrente e anomalia mensal da componente zonal do vento em 250hPa.



Figura 4 ? Altura Geopotencial e anomalia mensal do geopotencial no nível de 500 hPa.



Figura 5 ? Anomalia quinzenal do Geopotencial no nível de 850hPa e linha de corrente em 250 hPa.




Anomalia no campo de pressão

Na Figura 6, verifica-se o campo de anomalias de pressão ao nível médio do mar (PNM) onde notamos o predomínio de anomalias positivas (alta pressão) no Atlântico, com núcleo de 1026 hPA, e no Pacífico, com núcleo de 1029 hPa. Sobre o continente as anomalias observadas foram positivas ocorrendo entre o norte da Patagônia e o extremo sul do continente, além da faixa leste da Região Sul, em grande parte do Sudeste, na BA, centro-sul do TO, GO, e leste do MT. Anomalias negativas são verificadas ao sul de 60S. Este padrão de anomalia contribuiu para que os sistemas frontais tivessem pouca influência no tempo no interior do país, fato confirmado no texto de acompanhamento das frentes. A atuação da anomalia positiva no centro-leste do Brasil contribuiu também para a inibição da formação de nuvens, contribuiu para a elevação das temperaturas e para a manutenção da baixa umidade do ar em grande parte do interior do país durante o mês de agosto.
Figura 6 ? PNM e anomalia de PNM no mês de Agosto de 2007.



Anomalias de precipitação e temperatura.

No campo de anomalias de precipitação (Figura 7) pode-se notar um comportamento dentro do padrão climatológico em boa parte do centro-norte do Brasil. Anomalias negativas de precipitação foram observadas na parte oeste da Amazônia e em grande parte do centro-sul do país. Este padrão de anomalia foi favorecido pela atuação do anticiclone que atuou em grande parte do território brasileiro que contribuiu para impedir o avanço de sistemas frontais significativos para o interior do país. As anomalias positivas mais significativas ficaram restritas ao centro-norte de RR, sendo favorecidas por áreas de instabilidade associadas ao calor, umidade e forte divergência em altos níveis, em algumas áreas de AL e PE, favorecidas pela atuação da circulação anticiclônica em baixos e médios níveis que contribuiu para a atuação do efeito de brisa que favoreceram a ocorrência de acumulados significativos sobre esta parte do país. Outra área com anomalia positiva é o extremo sul do RS. Neste caso, a anomalia positiva esteve associada à atuação de sistemas transientes, que atuaram com maior intensidade entre o Nordeste da Argentina, o Uruguai e o RS, além da formação de ondas frontais próximo a estas áreas.

A atuação dos sistemas frontais, mais restrita ao extremo sul do Brasil, favoreceu a ocorrência das anomalias negativas nas temperaturas máximas e mínimas (Figura 8) em grande parte do RS e extremo sul do MS. Já em algumas áreas do Centro-Oeste e em alguns pontos do Sudeste e do Nordeste brasileiro as anomalias negativas de temperatura mínima foram favorecidas pela presença da circulação anticiclônica que inibia a formação e o desenvolvimento de nuvens, condição que favoreceu a forte perda radiativa e a queda das temperaturas durante a noite em algumas áreas. Este padrão de circulação também favoreceu a compressão adiabática e o forte aquecimento diurno que contribuíram para o aumento das temperaturas e a ocorrência de anomalias positivas das temperaturas em alguns pontos destas mesmas Regiões, principalmente no sul do TO, norte de GO e a região do Vale do Paraíba, em SP e na região da Serra da Mantiqueira, no sul de MG onde as temperaturas máximas no mês superaram em até 5 graus a média climatológica para o período.


Figura 7 ? Anomalia mensal de precipitação.




Figura 8 ? Anomalia mensal de temperaturas máximas e mínima.


As Figuras 9 e 10 representam o acompanhamento dos ciclones extratropicais, o qual é elaborado diariamente pelo Grupo de Previsão de Tempo (GPT). Este procedimento é feito a cada 6 horas para a primeira e segunda quinzena do mês de agosto, respectivamente. E em cada ponto está plotado o valor do centro do ciclone. Vale ressaltar, que este procedimento é o acompanhamento dos centros dos ciclones e não dos deslocamentos dos sistemas frontais como um todo (ramo frio, quente e ocluso). Desta forma, através destas figuras pôde-se concluir que a maior freqüência da passagem de ciclones se deu na segunda quinzena do mês, o que indicou um período mais frontogenético (mais detalhes ver Figura 1)


Figura 9 ? Acompanhamentos dos ciclones extratropicais a cada 6 horas para a primeira quinzena do mês de agosto. Em cada ponto está plotado o valor do centro do ciclone



Figura 10 ? Acompanhamentos dos ciclones extratropicais a cada 6 horas para a segunda quinzena do mês de agosto. Em cada ponto está plotado o valor do centro do ciclone.



Atualizado em 03/09/2007 17:04

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