Centro de Previsão
de Tempo e Estudos Climáticos
Síntese sinótica do mês de setembro de 2007

Durante o mês de setembro, observaram-se sete sistemas transientes de importância que se deslocaram acima de 40S. Os dois primeiros, um em torno do dia 4 e o outro do dia 10, avançaram entre a Argentina e o RS sem conseguir atingir latitudes mais baixas. O terceiro sistema frontal deslocou-se desde o centro da Argentina até Campos-RJ durante os dias 14 e 17, respectivamente. Este sistema teve o suporte dinâmico do Jato Polar Norte sobre o Atlântico chegando até latitudes mais baixas, principalmente pelo leste do continente. Já pelo interior, este sistema deslocou-se apenas até Ivaí-PR. O quarto sistema foi uma onda frontal formada entre Uruguai e Atlântico, cujo ramo frio deslocou-se até o PR. Esse sistema teve associado um intenso ciclone no Atlântico, próximo da costa sudeste da Província de Buenos Aires. Este sistema ficou estacionário no RS até o dia 23 e foi responsável por volumes significativos de chuva. Entre os dias 19 e 23 deste mês registraram-se valores de chuva que oscilaram entre 200 e 350 mm em várias localidades do Estado Gaúcho. No dia 23, este sistema deu origem a uma nova onda frontal (sexto sistema) que se acoplou a uma outra frente fria vinda da Argentina (quinto sistema) durante o dia 24. A frente fria vinda da Argentina reforçou a entrada de ar frio sobre boa parte do Centro-Sul do Brasil, dando origem a um importante evento de friagem. Além de conseguir avançar pelo interior, este sistema também se deslocou pelo leste do país, chegando até Caravelas-BA durante o dia 25. Houve significativa queda nas temperaturas e chegou a fazer -0,2 graus em São Joaquim-SC, segundo dados fornecidos pelo INMET. O sétimo sistema foi uma onda frontal que se formou sobre o Atlântico na altura do RS e seu ramo frio conseguiu afetar a faixa litorânea que vai de SC até o ES entre os dias 28 e 30.



Figura 1 ? Animação das análises (12 Z) em superfície.



A carta de altos níveis (250hPa, Figura 2) apresenta o deslocamento de cavados e cristas sobre o Brasil. Mostra também o padrão dos Jatos Subtropical, Polar Norte e Polar Sul, os quais estão associados a passagem de sistemas transientes e a formação de ondas frontais sobre a América do Sul e, em especial, nas latitudes acima de 30S.

Veja um resumo das ocorrências meteorológicas significativas do mês de setembro.




Figura 2 ? Animação da análise (12 Z) do escoamento em 250 hPa da troposfera.


2. Análise dos campos mensais de circulação


Ao longo do mês de setembro houve o predomínio da circulação anticiclônica ao longo do perfil atmosférico sobre boa parte do país o que favoreceu a subsidência, inibindo a formação e o desenvolvimento de nuvens, a ocorrência de chuvas significativas em boa parte do Brasil, as anomalias positivas de temperaturas e a baixa umidade do ar, principalmente na primeira quinzena do mês, que chegou a níveis críticos em algumas localidades, que por sua vez favoreceu aumento das condições favoráveis a incêndios em muitas áreas do Brasil, fato confirmado pelo número de focos de calor registrado durante todo o mês de setembro. Na segunda quinzena de setembro a presença dos jatos sobre a Região Sul e a forte divergência e altos níveis favoreceu a penetração de sistemas frontais que provocaram acumulados de chuva significativos no Sul do Brasil. No Norte o fortalecimento do anticiclone centrado sobre o sul do AM a forte divergência em altos níveis e as condições de forte calor e alta umidade em superfície contribuíram para a ocorrência de chuvas principalmente no Norte da Região. No litoral do Nordeste e ES o cavado em médios e altos níveis e o padrão anticiclônico em superfície também favoreceu as chuvas e as baixas temperaturas em algumas áreas destas localidades, principalmente na primeira quinzena de setembro.


Analisando, em altos níveis da troposfera (250 hPa), o campo de linha de corrente e a anomalia componente zonal do vento (Figura 3) para o mês de setembro, podemos notar um padrão de escoamento anticiclônico centrado sobre o sul do AM de onde se estende uma crista que atua sobre boa parte do Centro-Oeste, no Sul e em parte do Sudeste do Brasil. Nota-se também a presença de um cavado, a leste deste sistema de alta pressão, atuando entre o oeste do PA e o Atlântico próximo ao sul da BA. Verifica-se a presença do cavado no Pacífico próximo à costa do Chile. Este padrão de circulação, que reflete praticamente o padrão de verão (Alta da Bolívia e cavado do Nordeste), foi caracterizado a partir do dia 14, período em que a circulação anticiclônica está bem configurada, centrada no sul do AM, e onde se percebe a formação de um Vórtice Ciclônico de Altos Níveis (VCAN) sobre o norte do TO e oeste do MA. Nota-se, nesta segunda quinzena do mês, a presença de anomalia positiva do vento zonal sobre o norte do Chile, da Argentina, Uruguai e Sul do Brasil indicando a presença mais significativa dos jatos sobre estas áreas. Estes máximos de vento deram suporte dinâmico a onda frontal que atuou no Sul do Brasil provocando chuvas intensas e acumulados significativos que chegaram a mais de 300 mm em 72 horas em algumas cidades. Estas chuvas causaram alagamentos, prejuízos materiais e deixaram milhares de pessoas desabrigados, principalmente no RS, entre os dias 19 e 24. Os máximos de vento também deram suporte a uma frente fria que se acoplou a esta onda frontal, citada anteriormente, penetrando de forma mais significativa pelo interior do continente entre os dias 25 e 27. Este novo sistema provocou temperaturas negativas em algumas áreas do Sul e também o fenômeno de friagem no sudoeste da Amazônia. A difluência no escoamento verificada no norte da Região Norte e entre a borda leste/sudeste do anticiclone e o cavado no Nordeste contribuiu para o aumento da divergência e da instabilidade em algumas áreas da Região Norte e Central do Brasil, por isso, verificou-se a ocorrência de chuvas fortes em algumas áreas do norte do AM e de RR, do TO e de GO. Estes eventos foram suficientes para garantir anomalias positivas de precipitação em algumas áreas da Região Sul e do norte da Região Norte brasileira.


Figura 3 ? Linha de Corrente e anomalia mensal, e no período de 1 a 13 e de 14 a 30 de setembro de 2007, da componente zonal do vento em 250hPa.



O padrão anticiclônico também pode ser observado em níveis médios (Figura 4) onde se observa a condição de anomalias positivas no campo de geopotencial em 500 hPa sobre grande parte do continente e uma condição de bloqueio atmosférico sobre o Pacífico onde se percebem anomalias positivas de geopotencial entre as latitudes de 50 e 80S e anomalias negativas entre 30 e 48S. A anomalia negativa sobre o pacífico, citada anteriormente e verificada próximo à costa do Chile, favoreceu a formação de Vórtices Ciclônicos (VC) que ao ultrapassarem os Andes provocaram alguns episódios de Vento Zonda no oeste da Argentina. Ressalta-se que os episódios de Zonda costumam provocar chuvas intensas e tempestades de neve no no leste do Chile e oeste da Argentina, próximo a Cordilheira dos Andes. O deslocamento destes VC para leste favoreceu a formação eventos ciclogenéticos que atuaram na altura do Nordeste da Argentina e Uruguai, no entanto, a situação de bloqueio favorecida pela crista no interior do Brasil não favoreceu o avanço destes sistemas para latitudes mais baixas. Verifica-se, sobre o Brasil, que a anomalia foi intensa na primeira quinzena do mês (Região Sul) mostrando que a área de maior baroclinia ficou restrita ao sul de 30S. Na segunda quinzena houve um enfraquecimento na condição de bloqueio que favoreceu a entrada de alguns sistemas pelo interior do Brasil. O Padrão anticiclônico neste nível reforça as condições para altas temperaturas e baixa umidade em grande parte do Brasil.


Figura 4 ? Altura Geopotencial e anomalia mensal, e no período de 1 a 13 e de 14 a 30 de setembro de 2007, do geopotencial no nível de 500 hPa.




Nos níveis mais baixos (Figura 5), verificam-se, durante todo o mês, que mantêm-se os mesmos padrões verificados em médios e altos níveis da troposfera, ou seja, verifica-se o predomínio de uma circulação anticiclônica sobre grande parte da faixa centro-leste da América do Sul. Esta condição favoreceu o transporte de umidade do Atlântico para o Continente principalmente na primeira quinzena onde esta condição associada à presença de cavados em níveis médios e altos contribuiu para a ocorrência de chuva na faixa leste da Região Nordeste e no ES o que colaborou para a observação de anomalias positivas de precipitação e anomalias negativas de temperaturas em alguns pontos destas áreas no mês de setembro. O predomínio do padrão de circulação anticiclônico favoreceu a ocorrência de anomalias negativas do vento meridional no interior do país. Este padrão de anomalia indica o predomínio de vento do quadrante norte que auxilia a advecção de ar quente de latitudes mais baixas para a o Sul do Brasil. Esta condição contribuiu para a manutenção da instabilidade no Sudeste da Argentina, Uruguai e no RS principalmente durante a segunda quinzena, porém, esta mesma condição associada ao padrão anticiclônico em médios e altos níveis colaborou para a elevação das temperaturas em boa parte do Centro-Oeste, no Sudeste e no Sul do Brasil onde se pode notar anomalias positivas nas temperaturas extremas. As máximas e as mínimas superaram a climatologia em mais de 5 graus, em muitas localidades, principalmente na primeira quinzena do mês.



Figura 5 ? Anomalia mensal, e no período de 1 a 13 e de 14 a 30 de setembro de 2007, de geopotencial em 850 hPa e de linha de corrente em 250 hPa.



Anomalia no campo de pressão


Analisando o campo de pressão ao nível médio do mar (PNM) e suas anomalias mensais e por períodos (Figura 6), pode-se perceber a atuação da Alta Subtropical do Atlântico Sul (ASAS) influenciando o tempo em boa parte da faixa leste do Brasil. Ao longo do mês o comportamento do campo de pressão ficou próximo a climatologia em grande parte do país. No entanto, podemos verificar anomalias positivas de PNM na faixa leste do país na primeira quinzena do mês. Este comportamento anômalo, neste período, favoreceu o transporte mais intenso de umidade do oceano para a faixa litorânea entre o ES e PB, contribuindo para a anomalia positiva de precipitação verificada em alguns pontos desta área. Já na faixa centro-leste do país a anomalia positiva contribuiu para inibição da nebulosidade e da manutenção das altas temperaturas e da baixa umidade do ar observada em algumas áreas do Brasil além de inibir o avanço de sistemas frontais para latitudes mais baixas.

Figura 6 ? PNM e anomalia de PNM no mês, e no período de 1 a 13 e de 14 a 30 de setembro de 2007.




Análise do campo de precipitação e temperatura


Analisando o comportamento do campo de precipitação (Figura 7) podemos notar que o padrão de circulação atmosférico favoreceu a anomalia negativa de precipitação em quase todo o Brasil com exceção de algumas áreas do extremo norte da Região Norte, do litoral do Nordeste e do RS e de SC. No Nordeste a primeira quinzena foi decisiva para a anomalia positiva em algumas áreas. Isto foi favorecido pela atuação mais intensa da alta no Atlântico e do cavado sobre o Nordeste, que favoreceu anomalias de até 100 mm em algumas áreas do litoral da BA. Já na Região Sul tivemos anomalia negativa na primeira quinzena. No entanto, a atuação de ondas frontais e perturbações em níveis médios a partir da segunda quinzena provocaram acumulados significativos, acima de 300 mm em algumas áreas, que contribuíram para a anomalia positiva ao longo do mês que também chegaram a 200 mm no RS, mesmo valor verificado no extremo norte do país.
O padrão anticiclônico que predominou sobre grande parte do Brasil colaborou para a anomalia positiva de temperaturas extremas (Figura 8 e 9). As máximas superaram a climatologia em mais de 5 graus em algumas áreas de GO, SP, PR e MS. Na primeira quinzena pode-se verificar o período mais crítico onde as anomalias positivas (superiores a 5 graus) atingiram praticamente toda a Região Sul, além de SP, MS, e norte de GO. Anomalias de até 4 graus também foram observadas nas demais áreas do Centro-Oeste, parte de MG, TO, sudeste do PA e centro-norte do MA. As temperaturas mínimas também ficaram acima da climatologia em grande parte do Sul do Brasil e do MS. Na primeira quinzena tivemos anomalia negativa de temperatura mínima em parte do Nordeste do Brasil devido a nebulosidade e as chuvas ocorridas neste período nesta parte do país. Em algumas áreas do Centro Sul as temperaturas mínimas ficaram até 5 graus acima da climatologia para o período (setembro) sendo que na primeira quinzena este valor superou os 5 graus em boa parte do RS e algumas áreas do MS.

Figura 7 ? Anomalia de precipitação mensal ao longo do mês de setembro de 2007.

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Temperaturas máximas
Figura 8 ? anomalia de temperatura máxima ao longo do mês de Setembro de 2007.




Temperaturas mínimas.
Figura 9 ? anomalia de temperatura mínima ao longo do mês de Setembro de 2007.






Acompanhamento dos ciclones extratropicais

Nas Figuras 10 e 11 são apresentados os acompanhamento dos ciclones extratropicais entre as latitudes de 20S a 70S e entre as longitudes de 10E a 80W. Este procedimento é feito a cada 6 horas para a primeira e segunda quinzena do mês de setembro, respectivamente. E em cada ponto está plotado o valor do centro do ciclone. Desta forma, conclui-se que semelhantemente ao mês de agosto, setembro teve uma maior freqüência da passagem de ciclones na segunda quinzena do mês. Por isso, na primeira quinzena a trajetória dos ciclones se deu em latitudes mais altas, abaixo do paralelo de 50S, com excessão da trajetória número 3, observada sobre o oceano, já bastante afastada do continente. A segunda quinzena apresenta-se de forma contrária em relação a primeira, indicando um período mais frontogenético (mais detalhes ver Figura 1). O ciclone de número 7 na Figura 21 que surgiu entre os dias 18 e 23 de setembro, ficou estacionário oscilando sobre a Região Sul do país, provocando acúmulos entre 200 e 350mm, como já foi citado anteriormente. Após o dia 23 este sistema deu origem a uma nova onda frontal, que deslocou seu núcleo para o oceano e avançou com o seu ramo frio até o sul da Região Norte, dando origem ao fenômeno conhecido como friagem (mais detalhes ver Figura 1). Este sistema provocou queda de temperatura em várias localidades das Regiões Sul, Centro-Oeste e sul da Região Norte.

Figura 10 Acompanhamentos dos ciclones extratropicais a cada 6 horas para a primeira quinzena do mês de setembro. Em cada ponto está plotado o valor do centro do ciclone.



Figura 11 Acompanhamentos dos ciclones extratropicais a cada 6 horas para a segunda quinzena do mês de setembro. Em cada ponto está plotado o valor do centro do ciclone.


Atualizado em 02/10/2007 14:14

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