Centro de Previsão
de Tempo e Estudos Climáticos
Síntese sinótica do mês de janeiro de 2008

1. Acompanhamento dos principais sistemas meteorológicos (frentes, cavados, baixas, ZCAS, etc) que atuaram sobre a América do Sul, ao norte do paralelo de 40S, em janeiro de 2008.


O primeiro sistema frontal formou-se no dia 01 na altura da Bahia Blanca, Argentina. Este sistema teve fraca atuação causando, apenas, leve queda de temperatura. O mesmo se deslocou rapidamente pelo continente chegando até o Rio Grande-RS no dia 04.
No dia 06, às 00GMT, um cavado em níveis médios ajudou a organizar uma banda de nebulosidade entre o Atlântico e a Região Norte dando origem a um evento da Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS), primeiro evento do ano. Este sistema provocou acumulados significativos entre os dias 06 e 10 em algumas áreas. Os acúmulos ultrapassaram os 100mm, como por exemplo, 118,9mm em Gleba Celeste-MT. Nas outras áreas do Sudeste as precipitações também foram significativas, embora não tenham ultrapassado a marca dos 100mm.
O segundo sistema, o mais intenso até o momento, foi observado no dia 10 às 12 GMT em Bahia Blanca e avançou rapidamente pela Argentina, Uruguai e RS e, em 24 horas, atingiu a cidade de Porto Alegre-RS. Este sistema também avançou pelo interior e parte central do continente. Durante seu deslocamento causou forte chuva, rajadas de vento e descargas elétricas em algumas localidades da Argentina, Uruguai, Paraguai, Rio Grande do Sul e Santa Catarina. A partir do dia 12 a frente fria adquiriu características subtropicais e se deslocou por Santa Catarina e Paraná, chegando até Iguape-SP no dia 13 às 12 GMT. Entre a noite do dia 12 e a manhã do dia 13, este sistema juntamente com fatores termodinâmicos e divergência em altos níveis favoreceu a ocorrência de chuva forte com acumulado significativo no Vale do Ribeira e litoral sul paulista. Por exemplo, na cidade de Iguape foi registrado 219,5 mm em 24 horas, este valor foi recorde da estação meteorológica. A chuva causou transtornos em várias cidades e, em algumas delas, foi decretado estado de calamidade pública.
O terceiro sistema frontal deslocou-se pelo litoral desde Bahia Blanca, no Argentina, até Santa Catarina, no Brasil, entre os dias 15 e 17. Em seu trajeto provocou chuvas fortes, descargas elétricas e rajadas de vento superiores a 100 km/h em algumas áreas de Buenos Aires e La Pampa, no Rio Grande do Sul e Santa Catarina. A partir do dia 17 esta frente ficou estacionária as proximidades de Florianópolis até o dia 18, adquirindo características subtropicais.
O quarto sistema frontal formou-se ao sul da Província de Buenos Aires chegando até Florianópolis no dia 19 onde permaneceu estacionário. Este sistema apresentou advecção fria mais significativa sobre a Argentina e centro-sul do RS.
A partir do ramo estacionário do terceiro sistema frontal, que estava posicionado sobre Florianópolis, formou-se uma nova onda frontal subtropical sobre o oceano, próximo ao PR, durante o dia 19 (quinto sistema frontal). O fraco ramo frio desta onda frontal deslocou-se pela faixa leste do PR e SP e atingiu Vitória-ES no dia 22. O ar frio associado a esta onda subtropical foi reforçado pelo quarto sistema frontal, intensificando a advecção de ar frio e provocando fortes declínios de temperatura na faixa leste que vai do PR até o RJ até o dia 24.
O quinto sistema favoreceu a organização de uma zona de convergência e massa sobre o continente e deu origem a um novo evento de ZCAS. A permanência da ZCAS provocou acumulado significativo em algumas cidades de SP, MG, RJ e GO entre os dias 19 e 22. A partir do dia 24 a ZCAS desconfigurou-se, porém, a partir do dia 30, este sistema ganhou força provocando acumulados significativos em várias localidades das Regiões Sudeste, Centro-Oeste e Norte do Brasil.
O sexto sistema frontal atingiu a cidade de Bahia Blanca no dia 29 e rapidamente deslocou-se até Mar del Plata.


Veja um resumo das ocorrências meteorológicas significativas do mês de janeiro.




Figura 1 ? Animação das análises (12 Z) em superfície.



Figura 2 ? Animação da análise (12 Z) do escoamento em 250 hPa.



Acompanhamento dos ciclones extratropicais



As Figuras 3 e 4 mostram, de forma espacial, o deslocamento dos sistemas extratropicais durante a primeira e segunda quinzena do mês de janeiro de 2008, respectivamente.
Durante a primeira quinzena os ciclones extratropicais formaram-se bem mais próximo da costa em relação à segunda quinzena. A maior densidade de ciclones ficou concentrada ao sul do paralelo 40S, ao longo de todo o mês. Porém, na segunda quinzena (Figura 4) observou-se um ciclone a leste de SC (número 4) que teve um papel muito importante durante os últimos dias do mês. Esse sistema esteve associado a uma incursão de ar frio significativa que provocou declínios de temperatura em parte das Regiões Sul e Sudeste do Brasil.

Figura 3 ? Acompanhamentos dos ciclones extratropicais para a primeira quinzena do mês de janeiro de 2008. Em cada ponto está plotado o valor mínimo de pressão do ciclone.


Figura 4 ? Acompanhamentos dos ciclones extratropicais para a segunda quinzena do mês de janeiro de 2008. Em cada ponto está plotado o valor mínimo de pressão do ciclone.




2. Análise das anomalias de precipitação e temperaturas

A análise do campo de anomalia mensal de precipitação do mês de janeiro de 2008 (Figura 4) indica valores negativos significativos na área compreendida por Minas Gerais, grande parte da Bahia, leste e norte de GO, sul do TO e parte da Região Sul do Brasil. Esta característica persiste há alguns meses, porém, tem?se observado algumas variações. As anomalias positivas de chuvas mais significativas registradas ao longo deste mês estiveram concentradas de maneira heterogênea sobre parte de SC, SP, RJ, no TO e no interior do Nordeste e de forma homogênea sobre parte de MT e parte do AM.
A análise mais detalhada deste campo de anomalia permite identificar dois períodos bastante diferentes, o primeiro compreendido entre os dias 1 e 19 e o segundo determinado pelo resto mês.
Durante o primeiro período, as anomalias negativas continuaram dominando praticamente grande parte do país, as exceções de grande parte do Amazonas, parte de SC e PR, faixa leste de SP e áreas localizadas do Centro-Oeste e Nordeste do Brasil. A região mais castigada em relação ao déficit de precipitação esteve concentrada sobre boa parte das Regiões Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste do Brasil. Já na segunda parte do mês , as anomalias positivas de precipitação aparecem distribuídas de maneira mais homogênea e abrangendo grande parte do Centro-Oeste, São Paulo, oeste e centro-sul de Minas Gerais, Rio de Janeiro, Pará, Tocantins, Maranhão, Piauí, Ceará, oeste da Bahia e no interior do sertão.




Figura 5 ? Anomalia de precipitação de janeiro de 2008.



Em relação ao campo de anomalias de temperaturas máximas (Figura 6), nota-se que durante o primeiro período houve um predomínio de valores positivos ao longo de quase todo o território brasileiro, principalmente em áreas correspondente às Regiões Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste. Este comportamento foi observado tanto nas temperaturas máximas quanto nas mínimas. Durante o resto mês, houve uma mudança significativa neste padrão de temperatura; o predomínio de valores negativos concentrou-se no centro-sul do Brasil, especificamente em quase toda a Região Sul, São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, oeste e centro-sul de Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, sul e oeste de Mato Grosso e sul de Acre e Rondônia.

Figura 6 ? Anomalia de temperatura máxima de janeiro de 2008.



As temperaturas mínimas tiveram um comportamento similar ao campo de temperatura máxima (Figura 7).





Figura 7 ? Anomalia de temperatura mínima de janeiro de 2008.







3. Análise da circulação atmosferica

A análise sinótica, realizada pelo o Grupo de Previsão de Tempo (GPT) do CPTEC mostra que, durante o primeiro período do mês, a circulação atmosférica na troposfera média e alta caracterizou-se pela presença de um sistema de alta pressão representada por uma crista intensa que influenciou o tempo em boa parte do centro-sul do continente sul-americano. Por isso, neste período, registraram-se temperaturas máximas elevadas sobre o centro-norte da Argentina, Uruguai, Paraguai e boa parte das Regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste do Brasil. Em muitas localidades desta ampla área, as temperaturas máximas ultrapassaram os 35 graus durante vários dias consecutivos, determinando-se freqüentes ondas de calor. A crista que persistiu durante este período tem associados movimentos descendentes (subsidência) que impede o desenvolvimento vertical e faz com que os dias fiquem ensolarados, quente, com pouca nebulosidade e sem chuva. Por outro lado, a compressão adiabática associada à subsidência provoca um aquecimento significativo na troposfera média e baixa, sendo este mais um outro fator que contribui a aumentar as temperaturas em superfície. Nesta primeira parte do mês houve apenas três frentes frias que conseguiram passar principalmente pelo litoral da Região Sul e o litoral de SP.
A análise da circulação média em 250 hPa para este período (Figura 8) permite identificar a presença da Alta da Bolívia bem abrangente e um pouco mais deslocada ao sul da sua posição climatológica, justificando desta maneira as intensas ondas de calor que afetaram a Argentina, Uruguai, Paraguai e o Centro-Sul do Brasil. Este comportamento anômalo pode ser visto também através do campo de anomalia da componente zonal do vento. Nota-se um comportamento de tipo dipolo em relação a esta variável, isto significa anomalias negativas sobre o centro-norte do continente e positivas ao sul do paralelo 30S. No oceano Atlântico observa-se um comportamento similar, porém, deslocado mais ao sul. Desta maneira, o jato subtropical e o ramo norte do jato polar ficaram mais intensos sobre Argentina e o Uruguai, indicando que os sistemas transientes foram mais significativos nestes países.
No segundo período, a chegada de uma intensa frente fria (a quarta do mês) derrubou as temperaturas sobre Argentina, Uruguai, Paraguai e parte das Regiões Sul e Sudeste do Brasil. O ar frio, de características polares, ficou estagnado no oceano Atlântico Sul durante praticamente dez dias, fazendo com que as temperaturas declinassem de maneira significativa sobre a faixa litorânea do Paraná (PR), de SP e do RJ. Neste período, houve um bloqueio atmosférico estabelecido ao sul do continente, principalmente sobre o oceano Atlântico, que manteve a massa de ar frio sobre o oceano e parte do continente. O campo anômalo da componente zonal do vento em 250 hPa (Figura 8) permite identificar este bloqueio através de valores positivos ao norte do paralelo 30S e negativos ao sul deste paralelo. Por isso, dentro deste período as frentes frias não conseguiram atingir as Regiões Sul e Sudeste do Brasil. O máximo de anomalia positiva aparece orientado de sudoeste a nordeste, sendo mais intenso sobre o sul de SP e no RJ. Isto reflete a presença do jato subtropical que ficou influenciando o tempo de maneira significativa por estas regiões. Neste mesmo período observa-se também a presença do Vórtice do Nordeste bem mais configurado em relação ao primeiro período. A presença deste sistema de altitude foi determinante para provocar eventos extremos de chuva em várias localidades do PI, MA, CE , PB, PE, SE e AL (vide Figura 5).






Figura 8 ? Linha de Corrente e anomalia da componente zonal do vento em 250hPa de janeiro de 2008 .





A análise da circulação em 500 hPa (Figura 9), mostra um máximo de anomalia positiva sobre o centro-sul do continente com núcleo sobre o sul da Patagônia Argentina. Este núcleo esteve associado ao estabelecimento de uma configuração de bloqueio como já foi ressaltado no nível de 250 hPa e que predominou durante os últimos 10 dias do mês. Esta condição pode ser observada de maneira mais clara no campo anômalo correspondente a este último período (Figura 9). Entre os dias 20 e 25, aproximadamente, o bloqueio atmosférico ficou configurado tanto no Pacífico quanto no Atlântico. A partir desta data, o bloqueio deslocou-se mais para o Atlântico fazendo com que o Anticiclone Subtropical do Atlântico Sul ficasse mais intenso e, em conseqüência, deixasse o tempo mais frio sobre o leste do PR, de SP e no RJ.
Durante o primeiro período o padrão de circulação anômalo aparece praticamente invertido em relação ao segundo período. Nota-se que, sobre o centro-norte da Argentina, do Chile, no Paraguai, Uruguai e em parte do RS, aparece um máximo de anomalia positivo associado à intensificação da crista na troposfera média e alta. Por isso, neste período, registraram-se ondas de calor sobre estas áreas afetadas. Por outro lado, no sul do continente e no oceano Atlântico Sul, predominaram as anomalias negativas de altura geopotencial, associadas à maior freqüência de sistemas transientes que passaram por estas regiões.






Figura 9 ? Altura Geopotencial e anomalia de geopotencial em 500 hPa de janeiro de 2008.





A análise do campo de anomalias de pressão em superfície (Figura 10) mostra um reflexo dos sistemas descritos no campo de 500 hPa. Nota-se que o segundo período foi determinante já que reflete no campo mensal. O mais significativo foi o máximo de anomalia positiva observado sobre boa parte do oceano Atlântico Sul e o extremo sul do continente que acabou provocando anomalias negativas de temperatura sobre parte das Regiões Sul e Sudeste.





Em relação à análise do campo de anomalias correspondente ao nível de 850 hPa (Figura 10) pode-se identificar a presença do jato de baixos níveis (JBN) (anomalias negativas da componente meridional do vento) direcionado para as Regiões Centro-Oeste e Sudeste do Brasil, justificando a persistência do evento de ZCAS. A Baixa do Noroeste da Argentina (BNOA) ficou praticamente ausente ao longo do mês, motivo pelo qual o JBN ficou restrito a latitudes mais baixas. Esta característica ajudou a aumentar a convergência de umidade em áreas que vinham tendo déficit de chuva e, simultaneamente, continuou inibindo a formação de chuvas significativas na Região Sul do Brasil. Esta característica pode ter sido uma resposta à atuação do fenômeno de "La Niña".
Na Região Norte do Brasil, nota-se que, durante o segundo período analisado, a convergência de massa e umidade ficou mais restringida ao litoral do Pará e do MA, indicando que a presença da ZCIT. Vale a pena ressaltar que neste período as chuvas foram mais significativas nessas áreas.

Figura 10 ? Pressão ao Nível médio do Mar e anomalia de pressão de janeiro de 2008.








Figura 11 ? Linha de corrente e anomalia de vento meridional em 850hPa de janeiro de 2008.



Atualizado em 01/02/2008 13:11

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