1. Acompanhamento dos principais sistemas meteorológicos (frentes, cavados, baixas, ZCAS, etc) que atuaram sobre a América do Sul, ao norte do paralelo de 40S, em fevereiro de 2008.
No início do mês de fevereiro ainda observou-se a presença da Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS) que havia se formado no dia 30 do mês anterior. Este sistema chegou até o norte da Região Sudeste e a frente fria que acompanhou obteve características subtropical entre Florianópolis e Vitória, e depois deslocou-se mais para o sul, ficando entre SP e RJ durante o dia 03. Este sistema causou chuvas fortes e acumulados significativos nas Regiões Sudeste, Centro-Oeste e Norte do Brasil. Os impactos mais significativos ocorridos na população registraram-se em MG e RJ.
A primeira frente fria do mês trouxe queda nas temperaturas na Região Sul. Ela se deslocou da Bahia Blanca (Argentina) até Florianópolis (SC) entre os dias 2 e 3 de fevereiro. Este sistema deslocou-se de Florianópolis-SC chegando à Vitória-ES durante o dia 5, mas como subtropical, pois o suporte em altitude está relacionado ao Jato Subtropical (JST). A partir do dia 4, a ZCAS ganhou força e novamente provocou chuvas fortes em MG, RJ e em parte do Centro-Oeste do Brasil. Durante o dia 5, o ar frio que ingressou sobre o RS e SC provocou temperaturas mínimas baixas extremas que oscilaram entre 4 e 6 graus. A ZCAS ficou ativa até o dia 09.
A segunda frente fria do mês apresentou um deslocamento bastante zonal, deslocou-se pelo leste da Argentina e parte do Uruguai entre o dia 4 e o dia 5. Sobre o Brasil este sistema atuou somente sobre Santa Vitória do Palmar-RS entre o dia 5 e o dia 6 e não provocou impactos significativos.
A terceira frente fria avançou principalmente pelo litoral, desde Bahia Blanca até o litoral norte do Uruguai entre os dias 7 e 8.
O quarto sistema, uma onda frontal, formou-se no oceano no dia 09 atuando desde Mar del Plata até Florianópolis. Este sistema não provocou queda de temperatura significativa, mas favoreceu a ocorrência de chuvas com descargas elétricas entre a província de Buenos Aires e parte do Sul do Brasil.
O quinto sistema frontal surgiu à 00Z do dia 15 na Bahia Blanca e deslocou-se para Mar del Plata às 12Z.
O sexto sistema frontal também ficou restrito à Bahia Blanca no dia 18.
O sétimo sistema frontal atuou de forma litorânea pela Província de Buenos Aires no dia 21 passando por Bahia Blanca e Mar del Plata.
No dia 24 às 12z formou-se outro evento de ZCAS que persistiu durante o restante do mês estendendo-se pelo início de março. Este sistema provocou chuvas significativas e impactos à população das Regiões Sudeste, Nordeste, Centro-Oeste e Norte do país (ver casos significativos).
Veja um resumo das ocorrências meteorológicas significativas do mês de fevereiro.
Figura 1 ? Animação das análises (12Z) de superfície.
Figura 2 ? Animação das análises (12Z) do escoamento em 250 hPa.
Acompanhamento dos ciclones extratropicais
As Figuras 3 e 4 mostram, de forma espacial, o deslocamento dos sistemas extratropicais durante a primeira e a segunda quinzena do mês de fevereiro de 2008, respectivamente.
Durante a primeira quinzena os ciclones extratropicais formaram-se bem mais próximo da costa em relação à segunda quinzena. A maior densidade de ciclones ficou concentrada ao sul do paralelo 40S, ao longo de todo o mês. Porém, na segunda quinzena (Figura 4) observou-se um ciclone à leste de SC e do PR, que teve um papel muito importante durante os últimos dias do mês, pois esse sistema subtropical associado a passagem de cavados pelo Continente, contribuiu para reforçar e organizar um novo episódio de ZCAS entre a Região Sudeste e o sul da Região Nordeste.
Figura 3 ? Acompanhamentos dos ciclones extratropicais para a primeira quinzena do mês de fevereiro de 2008. Em cada ponto está plotado o valor mínimo de pressão do ciclone.
Figura 4 ? Acompanhamentos dos ciclones extratropicais para a segunda quinzena do mês de fevereiro de 2008. Em cada ponto está plotado o valor mínimo de pressão do ciclone.
2. Análise das anomalias de precipitação e temperaturas
A análise do campo de anomalia mensal de precipitação do mês de fevereiro de 2008 (Figura 5) indica valores negativos significativos em grande parte da Região Norte, litoral da Região Nordeste, no centro e oeste da Região Sul e no norte e oeste de Mato Grosso. As anomalias positivas de precipitação ocorreram em grande parte da Região Sudeste, em Mato Grosso do Sul, Goiás, sudoeste de Tocantins e no sudoeste e noroeste da Bahia.
A análise mais detalhada deste campo de anomalia permite identificar dois períodos bastante diferentes, o primeiro compreendido entre os dias 1 e 14 e o segundo determinado pelo período de 15 a 29.
Durante o primeiro período, as anomalias negativas continuaram dominando praticamente grande parte do país, as exceções foram em grande parte do Amazonas, litoral do RS e de SC, RJ, MG, GO, leste e nordeste de MT e sudoeste de TO. O oeste das Regiões Centro-Oeste, Norte e Sul e o litoral da Região Norte tiveram chuva abaixo da média para o período. As anomalias positivas entre o Sudeste e o Centro-Oeste foram influenciadas pela organização da ZCAS e a passagem de uma frente fria no Sul e uma onda subtropical no Sudeste.
No segundo período do mês, as anomalias positivas de precipitação se concentraram em parte das Regiões Sudeste e Centro-Oeste, na BA, AM e norte de RR. Um dos principais fatores que contribuiu para esses valores foi a presença da ZCAS e de áreas de instabilidade formadas por cavados em médios e altos níveis da atmosfera.
Figura 5 ? Anomalia de precipitação de fevereiro de 2008.
Em relação ao campo de anomalias de temperaturas máximas (Figura 6), nota-se que durante o primeiro período houve um predomínio de valores positivos principalmente em áreas correspondente às Regiões Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste e em parte do Pará. Este comportamento foi observado tanto nas temperaturas máximas quanto nas mínimas. Ressalta-se que a Região Sul teve anomalias negativas de temperatura mínima, devido a passagem de uma frente fria. Também Rondônia e Acre tiveram temperaturas máximas com anomalia negativa.
Durante o segundo período do mês as anomalias positivas das temperaturas mínimas foram observadas entre a Região Sudeste e o Pará. Porém houve anomalias negativas de temperaturas máximas no sudoeste e oeste de SP, em MS, oeste de MT, RO e AC.
Figura 6 ? Anomalia de temperatura máxima de fevereiro de 2008.
As temperaturas mínimas tiveram um comportamento similar ao campo de temperatura máxima (Figura 7).
Figura 7 ? Anomalia de temperatura mínima de fevereiro de 2008.
3. Análise da circulação atmosférica
A análise sinótica, realizada pelo o Grupo de Previsão de Tempo (GPT) do CPTEC mostra que, durante o primeiro período do mês, a circulação atmosférica na troposfera média e alta caracterizou-se pela presença
de um sistema de baixa pressão representado por um cavado no centro-sul do Brasil. Esse sistema enfraqueceu a atuação da Alta da Bolívia, que migrou seu centro para o sul do Peru, e também intensificou os ventos de oeste entre a Região Sul, SP,RJ, MS, Paraguai e norte do Chile e da Argentina.
As anomalias positivas dos ventos de oeste juntamente com o cavado contribuiram para instabilizar toda esta área de atuação e também favoreceram a formação da ZCAS durante este período. Na Região Nordeste pode-se observar a atuação do Vórtice Ciclônico (VCAN) com o centro na região do semi-árido e isso fez com que a anomalia de chuva fosse negativa.
No segundo período, nota-se a intensificação da crista da Alta da Bolívia em direção ao sul do Atlântico, portanto houve um bloqueio nas passagens de frentes frias para o Brasil. Essas frentes foram mais oceânicas, mas contribuiram para a formação da ZCAS a partir do dia 24. Por isso houve anomalias positivas dos ventos de oeste na Região Sudeste e forte difluência na Bahia. O campo anômalo da componente zonal do vento em 250 hPa (Figura 8) permite identificar este bloqueio através de valores positivos ao norte do paralelo 30S e negativos ao sul desse paralelo. Por isso, dentro deste período as frentes frias não conseguiram atingir as Regiões Sul e Sudeste do Brasil. O máximo de anomalia positiva aparece orientado de sudoeste à nordeste, sendo mais intenso sobre o RJ. Isto reflete a presença do jato subtropical que ficou influenciando o tempo de maneira significativa no oceano adjacente à Região Sudeste e que contribuiu para a formação de episódio de ZCAS.
Figura 8 ? Linha de Corrente e anomalia da componente zonal do vento em 250hPa de feveriro de 2008 .
A análise da circulação em 500 hPa (Figura 9), mostra um máximo de anomalia positiva de geopotencial sobre o centro-sul do continente com núcleo sobre o sul da Patagônia Argentina. Este núcleo esteve associado ao estabelecimento de uma configuração de bloqueio como já foi ressaltado no nível de 250 hPa e que predominou durante os últimos dias do mês. Esta condição pode ser observada de maneira mais clara no campo anômalo correspondente a este último período (Figura 9). O bloqueio atmosférico ficou configurado tanto no Pacífico quanto no Atlântico. Com isso, a circulação do Anticiclone migratório (pós-frontal) ficou mais intenso no Atântico Sul e, em conseqüência, a crista deixou o tempo mais seco no Sul do Brasil gerando áreas de subsidência.
Também uma anomalia negativa se configurou nos últimos dias do mês com a presença de um cavado próximo do litoral do Sudeste e, isto se deve pela convergência de umidade em superfície com a presença de um episódio de ZCAS, que trouxe chuvas significativas no Sudeste e na Bahia.
Figura 9 ? Altura Geopotencial e anomalia de geopotencial em 500 hPa de fevereiro de 2008.
A análise do campo de anomalias de pressão em superfície (Figura 10) mostra um reflexo dos sistemas descritos no campo de 500 hPa. Nota-se que o segundo período foi determinante já que reflete no campo mensal. O mais significativo foi o máximo de anomalia positiva de pressão observado sobre boa parte do oceano Atlântico Sul que acabou provocando anomalias negativas de chuva sobre grande parte da Região Sul. Nota-se um cavado invertido com anomalia negativa de pressão à leste da Região Sudeste, que identifica uma área de baixa pressão, a qual reforça a presença da ZCAS.
Figura 10 ? Pressão ao Nível médio do Mar e anomalia de pressão de fevereiro de 2008.
Em relação à análise do campo de anomalias correspondente ao nível de 850 hPa (Figura 11) pode-se identificar a presença do jato de baixos níveis (JBN) (anomalias negativas da componente meridional do vento) direcionado para as Regiões Centro-Oeste e Sudeste do Brasil, justificando a persistência do evento de ZCAS. A Baixa do Noroeste da Argentina (BNOA) ficou praticamente ausente ao longo do mês, motivo pelo qual o JBN ficou restrito a latitudes mais baixas. Esta característica ajudou a aumentar a convergência de umidade em áreas que vinham tendo déficit de chuva, como na BA no fim do mês, e, simultaneamente, continuou inibindo a formação de chuvas significativas na Região Sul do Brasil. Nota-se que, durante o segundo período analisado, a presença de ventos de norte em grande parte da Região Norte e em MT vem a reforçar a convergência de massa e umidade quando da formação de ZCAS. Outro aspecto importante foi a anomalia positiva no Atântico à leste da Região Sul e na Região Sudeste e na BA, o que evidencia a presença de ventos do quadrante sul, que foram intensificados pelo anticiclone à leste da Província de Buenos Aires.
Figura 11 ? Linha de corrente e anomalia de vento meridional em 850hPa de fevereiro de 2008.
Em síntese o mês de fevereiro de 2008 teve poucos sistemas frontais frios atuando no Brasil, mas teve episódios de ZCAS que provocaram temporais na Região Sudeste e na Bahia, com acumulados significativos de chuva em algumas cidades (ver tabela). A primeira frente fria atuou no início do mês até o litoral de Santa Catarina e causou chuvas significativas e transtornos à população no sul desse Estado. A presença de um bloqueio atmosférico na segunda metade do mês contribuiu para deixar as anomalias de chuva negativas em grande parte da Região Sul. Também em grande parte da Região Norte e em MT choveu um pouco abaixo da média esperada.