1. Acompanhamento dos principais sistemas meteorológicos (frentes, cavados, baixas, ZCAS, etc) que atuaram sobre a América do Sul, ao norte do paralelo de 40S, em abril de 2008.
O primeiro sistema frontal do mês de abril formou-se no Atlântico, na altura do litoral sul do Rio Grande do Sul durante a noite do dia 01. Este sistema avançou principalmente pelo litoral chegando até Cabo Frio (RJ) durante o dia 05. Sobre o interior a frente fria chegou até Presidente Prudente e na faixa central atingiu a cidade de Campo Grande e a cidade de Cuiabá.
No seu percurso, este sistema frontal provocou chuvas e quedas nas temperaturas. Devido ao fato de que o ar frio conseguiu penetrar pelo interior do continente, as temperaturas máximas cairam de maneira significativa em algumas localidades do sul e oeste de Mato Grosso, sul de Mato Grosso do Sul, Acre e Rondônia. Desta forma caracterizou-se o primeiro evento de friagem do ano.
A segunda frente fria do mês avançou pela província de Buenos Aires durante o dia 05, passando pelo litoral pelas cidades de Bahia Blanca e Mar del Plata. No dia 06 este sistema deslocou-se zonalmente pelo Atlântico sem influenciar o tempo sobre o continente.
O terceiro sistema foi uma onda frontal que formou-se na região do Golfo de San Matias (Patagônia Argentina) e deslocou-se pelo litoral da Província de Buenos Aires entre os dias 06 e 07, ficando estacionário na Bacia do Prata. No dia 08 este sistema atuou no oceano e não mais influenciou o continente.
O quarto sistema frontal veio do sul do continente, passou por Bahia Blanca durante o dia 10 e chegou até Cabo Frio (RJ) no dia 15. Esta frente trouxe chuvas fortes nos Estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. A intensidade da chuva nesta região foi favorecida pela combinação do jato de baixos níveis com os jatos de altos níveis (Subtropical e Polar Norte, principalmente). Toda esta instabilidade também atingiu o Estado de São Paulo. A alta pós-frontal associada a esta frente fria provocou queda brusca de temperaturas no centro-sul do país e geadas amplas na Região Sul. Em algumas localidades os valores de temperatura mínima foram os mais baixos dos últimos nove anos. Entre os dias 14 e 15 este sistema avançou pelo interior do continente, atingindo o Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Rondônia, Acre e Bolívia derrubando os valores de temperatura nestas regiões, caracterizando o segundo evento de friagem do ano. Em São Joaquim (SC) a temperatura mínima chegou a -0,5C, sendo este o primeiro evento de geada do ano.
Entre os dias 16 e 23, passaram outros três sistemas frontais (quinto, sexto e sétimo) que se deslocaram pela Província de Buenos Aires e não atingiram o território brasileiro.
Durante os dias 20 e 23 deste mês, o deslocamento de um cavado na troposfera média e alta provocou tempo severo em algumas localidades do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro e Espírito Santo.
A oitava frente fria começou a atuar na Província de Buenos Aires durante o dia 24, chegando a Porto Alegre (RS) no dia 26. Este sistema também passou pelo interior do continente, atingindo o centro-sul do Uruguai, centro-sudeste do Rio Grande do Sul, a Província de Buenos Aires e o sul da Província de Santa Fé (Argentina).
A nona frente fria foi outro dos sistemas frontais mais intensos deste mês. Também veio do sul do continente, passando por Bahia Blanca durante o dia 28 e chegando a Rio de Janeiro no dia 30. Este sistema frontal também avançou pelo interior do continente e em seu percurso provocou fortes quedas nas temperaturas no Centro-Sul e no sul da Região Norte, caracterizando o terceiro episódio de friagem do ano.
O comportamento da Zona de Convergência Intertropical (ZCIT) sobre o oceano Atlântico ainda continuou apresentando dois ramos em alguns períodos do mês; o principal oscilando ao redor do Equador e influenciando o tempo sobre Amapá , nordeste do Pará e no litoral do Maranhão e um outro ramo secundário que se se encostava à faixa litorânea compreendia entre o Rio Grande do Norte e o Ceará . Assim, registrou-se volume significativo de chuva em várias localidades destes Estados atingidos.
Na Figura 1 e 2 apresenta-se as animações das cartas sinóticas de superfície e altitude.
Veja um resumo das ocorrências meteorológicas significativas do mês de abril.
Figura 1 ? Animação das análises (12Z) de superfície.
Figura 2 ? Animação das análises (12Z) do escoamento em 250 hPa.
Acompanhamento dos ciclones
A Figura 3 e 4 mostra a distribuição espacial dos principais ciclones extratropicais formados durante o mês de abril de 2008. Nota-se que a maior densidade de sistema esteve concentrada ao sul do paralelo 40S em ambas as quinzenas. Este comportamento é coerente com os resultados obtidos da análise dos campos de circulação em superfície e altitude (Figuras 9 e 10), onde houve um predomínio de anomalias negativas nestas regiões.
Durante a primeira quinzena houve dois sistemas de baixa pressão que se formaram um pouco mais ao norte, o número dois e oito, respectivamente. O ciclone dois formou-se a sudeste do RS e teve uma trajetória bem meridional, em direção ao sudeste. Este sistema esteve relacionado com uma frente fria de relativa intensidade e que deu origem ao primeiro evento de friagem do ano.
Figura 3 ? Acompanhamentos dos ciclones extratropicais para a primeira quinzena do mês de abril de 2008. Em cada ponto está plotado o valor mínimo de pressão do ciclone.
Figura 4 ? Acompanhamentos dos ciclones extratropicais para a segunda quinzena do mês de abril de 2008. Em cada ponto está plotado o valor mínimo de pressão do ciclone.
2. Análise das anomalias de precipitação e temperaturas
A Figura 5 mostra a distribuição espacial das anomalias de precipitação ao longo do mês de abril e durante os dois períodos escolhidos pelo Grupo da Previsão de Tempo (GPT). Nota-se que, ao longo do mês as chuvas anômalas mais significativas estiveram distribuídas em boa parte das Regiões Sul e Sudeste e em parte das Regiões Centro-Oeste e Norte do Brasil. Os valores anômalos extremos estiveram localizados sobre parte do Tocantins , oeste da Bahia, no Piauí, Maranhão, nordeste do Pará e no Ceará.
As anomalias negativas de precipitação mais significativas se concentraram sobre o centro-sul do Rio Grande do Sul, no leste da Região Nordeste, no centro-sul do PA, norte de Mato Grosso, Rondônia e no centro-leste do Amazonas.
Durante os primeiros 15 dias a distribuição das chuvas tiveram um comportamento similar ao mês inteiro. Já na segunda quinzena, as chuvas estiveram distribuídas de uma maneira mais heterogênea, tendo suas anomalias mais significativas sobre parte do Rio Grande do Sul, em Santa Catarina, parte do Paraná, em Tocantins, Maranhão, Piauí e no Amazonas.
Figura 5 ? Anomalia de precipitação de abril de 2008.
A Figura 6 mostra a distribuição espacial das anomalias de temperaturas máximas ao longo do mês de abril e durante os dois períodos selecionados pelo Grupo da Previsão de Tempo (GPT). Notam-se anomalias positivas significativas no nordeste de São Paulo, Minas Gerais, norte do Espírito Santo, centro-norte de GO e no sul da Bahia. Observam-se anomalias negativas significativas sobre o oeste de Mato Grosso e no sul de Rondônia e do Acre. Este padrão anômalo esteve associado à atuação de três eventos de friagem. Na segunda quinzena aparece uma outra área com anomalias negativas de temperaturas máximas em Santa Catarina e Paraná, associada à ocorrência de chuvas intensas.
Figura 6 ? Anomalia de temperatura máxima de abril de 2008.
O campo de anomalia de temperaturas mínimas (Figura 7) mostra valores positivos significativos sobre parte de São Paulo, Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso. Os valores negativos predominaram sobre parte do Rio Grande do Sul e em parte do Nordeste do Brasil.
Figura 7 ? Anomalia de temperatura mínima de abril de 2008.
3. Análise da circulação atmosférica
A análise da circulação em 250 hPa (Figura 8) mostra um anticiclone centrado entre o Centro-Oeste e Nordeste do Brasil, cuja circulação associada abrange boa parte do centro-norte do continente. Ao norte deste sistema, sobre o oceano Atlântico tropical, nota-se a presença de outro anticiclone centrado aproximadamente em 5N. Ambos os centros de alta pressão (um no Hemisfério Sul e o outro no Hemisfério Norte) determinam uma ampla área de difluência de ventos sobre o norte da Região Nordeste e em boa parte da Região Norte do Brasil. A divergência resultante deste padrão de ventos em altitude favoreceu a intensificar a convergência em superfície, e em conseqüência, intensificar as chuvas nestas áreas. Este padrão de circulação favoreceu o encostamento da ZCIT para o sul, intensificando as chuvas em algumas localidades do Ceará, Piauí, Maranhão e nordeste do Pará. Ressalta-se que neste mês a ZCIT teve dois ramos que influenciaram estes Estados.
Este dipolo de circulação em altitude observado em ambos os Hemisfério manteve-se nas duas quinzenas, sendo um pouco mais significativo durante a primeira.
Em latitudes mais altas percebe-se a presença de um cavado se estendendo desde o oceano Atlântico Sul até o sul da Região Sul. O jato subtropical e o ramo norte do jato polar atravessam o continente de forma zonal entre as latitudes 19S e 30 S. Já o ramo sul do jato polar aparece no oceano Pacífico na altura de 60S, entra no continente em direção nordeste e sai no Atlântico Sul contornando o cavado mencionado anteriormente.
No Pacífico, notam-se anomalias positivas entre 50 e 60S e anomalias negativas entre 28 e 42S, determinando uma configuração de tipo bloqueio. Este padrão de circulação geralmente está associado com incursões de ar frio sobre o continente sul-americano.
Este comportamento se manteve ao longo das duas quinzenas analisadas e estiveram associadas a duas intensas ondas de frio ocorridas no final das duas quinzenas, respectivamente. O cavado no Atlântico Sul foi um pouco mais intenso durante a segunda quinzena e esteve associado a uma intensa área de baixa pressão em superfície.
Figura 8 ? Linha de Corrente e anomalia da componente zonal do vento em 250hPa de abril de 2008 .
O campo de anomalia de altura geopotencial em 500 hPa (Figura 9) mostra um intenso cavado anômalo no Atlântico se estendendo em direção à Região Sul do Brasil. Já no Pacífico nota-se um intensa crista anômala entre 35 e 60S. Ambos os sistemas (cavado no Atlântico e crista no Pacífico) determinaram um fluxo intenso de sudoeste sobre boa parte do centro-sul do continente. Desta maneira os sistemas transientes associados a massas de ar frio polares conseguiam atingir latitudes baixas. As duas quinzenas apresentaram este padrão predominante. A primeira mostrou a crista mais intensa e mais ao norte em relação à segunda.
Figura 9 ? Altura Geopotencial e anomalia de geopotencial em 500 hPa de abril de 2008.
A Figura 10 mostra o campo de anomalia de pressão reduzida ao nível do mar. Nota-se a presença de um cavado frontal no Atlântico em direção à Região Sul do Brasil. Este sistema é reflexo do campo anômalo de 500 hPa e 250 hPa, respectivamente, como já foi ressaltado anteriormente. No Pacífico também se percebe um dipolo de anomalias positivas e negativas, sugerindo que o Anticiclone Subtropical do Pacífico ficasse um pouco mais ao sul da sua posição climatológica. Isto significa que os anticiclones migratórios foram mais intensos quando entravam no continente. Este comportamento também pôde-se observar nas duas quinzenas analisadas, porém durante a primeira o cavado frontal esteve mais intenso e mais próximo do continente. Nesta quinzena, também nota-se uma ampla área de anomalias negativas no Pacífico Sul associado aos sucessivos ciclones polares que passaram por essas latitudes. O Anticiclone Subtropical do Pacífico aparece bem intenso com um núcleo de 1025 hPa. Já na segunda quinzena este sistema enfraquece bastante apresentando um núcleo de 1017 hPa. Nesta quinzena o oceano Atlântico Sul aparece com uma ampla área de anomalias negativas associada à presença de duas intensas baixas relacionadas às ondas de frio descritas anteriormente.
Figura 10 ? Pressão ao Nível médio do Mar e anomalia de pressão de abril de 2008.
A análise da circulação em 850 hPa é apresentada na Figuras 11.
Podem-se observar anomalias negativas da componente meridional do vento sobre parte do Norte, Nordeste e Sudeste do Brasil, indicando que os ventos foram anômalos do quadrante norte em algumas áreas destas Regiões. Sobre o norte do continente este padrão de ventos anômalos esteve associado à posição da ZCIT e ficou bastante ativa ao longo deste mês. Ao sul do paralelo 30S notam-se ventos anômalos de quadrante sul associados às três intensas entradas de ar frio sobre o continente sul-americano. Não há diferenças significativas entre ambas as quinzenas, apenas pôde-se observar que os ventos de quadrante norte foram mais intensos a leste da Bolívia, em Mato Grosso do Sul e Mato Grosso durante a segunda quinzena. Isto esteve associado à presença do Jato de Baixos Níveis (JBN) que esteve presente neste período.
Figura 11 ? Linha de corrente e anomalia de vento meridional em 850hPa de abril de 2008.
4. Monitoramento da Oscilação de Madden-Julian (OMJ)
Desde o final de março e durante os primeiro oito dias de abril a OMJ esteve favorável e ativa, contribuindo a intensificação das chuvas sobre parte do Norte e Nordeste do Brasil. Ressalta-se que durante os primeiro dias do mês a ZCIT apresentou dois ramos e um deles direcionado para o litoral do Maranhão e Ceará.
Entre os dias nove e vinte e dois a OMJ esteve em uma fase desfavorável e o resto do mês a OMJ voltou-se a intensificar. Foi neste último período do mês onde as chuvas começaram a se intensificar em parte do Norte do Brasil, principalmente no oeste do Pará e em boa parte do Amazonas.